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quarta-feira, 3 de junho de 2020

A última marola antes da “Primeira Onda”


A última marola antes da “Primeira Onda”
LIMA, Anderson
Muito mais que um xingamento ou uma definição de orientação sexual, o termo bicha determinava uma posição na escala social. Ricos ou pobres, brancos ou pretos, homens, mulheres ou bichas, homens efeminados ou passivo na relação sexual, aquele que é penetrado, tem “a posição social inferior da ‘mulher’...” (GREEN, 2000, PÁG. 279). Em Green (2000) é narrado que até antes dos anos de 1970 “os homens que mantinham relação sexual com outros homens se dividiam em duas categorias: o homem verdadeiro e a bicha”. O papel do “bofe”[1] surge como o homem ativo, que assume o papel de liderança na relação sexual e mesmo tendo relação com outro homem, ainda assim é considerado “homem verdadeiro” (GREEN, 2000). Até meados do séc XX não se tem registros de bares exclusivos ao público GAY, levando esses encontros às praças, becos, praias e banheiros públicos.
A própria história nos apresenta civilizações antigas que consideravam corriqueiras e normais os casos de relacionamento e até mesmo casamentos de pessoas do mesmo sexo. Atos esses que apenas começaram a ser criminalizados no início da era cristã, levando à pena de morte aqueles que os praticava (BOMFIM, 2011). Casos, obviamente, de extorsão política e financeira que tanto Estado quanto Igreja se aproveitaram para ampliar seus bens e recursos. As ordens religiosas e Estatais criaram Leis e regras como n“As Ordenações Manuelinas (1521)... que trataram do “crime de sodomia” no Livro Quinto, Título XII, e, igualmente, determinavam a morte pelo fogo, estabelecendo, contudo, que todos os bens do condenado fossem confiscados à Coroa portuguesa...” (BOMFIM, 2011).
Em detrimento as relações políticas instituem-se as relações de pré-conceitos. As necessidades religiosas da população em geral influenciaram diretamente em algumas segregações de relacionamento, principalmente as que se referem aos relacionamentos do mesmo sexo.. No Brasil, apenas em 1830, uma Lei Imperial aboliria o crime de sodomia, porém a aversão aos atos sexuais de pessoas do mesmo sexo prevê crimes de indecência. Códigos de noções de moral, decência pública e vadiagem eram usados na abordagem de pessoas que transgredissem as normas sexuais aprovadas socialmente (GREEN, 2000). Através do código penal de 1890, o preconceito se tornava indireto, promovendo a prisão daqueles que cometessem atos de atentado público ao pudor ou o travestimento (PEREIRA, 2015).
A procura pelas praias e locais desérticos e semidesertos se torna uma grande rotina GAY, além dos quartos de hotel, casas de amigos e festas particulares. O carnaval se torna então o momento do ano em que tudo é liberado, inclusive o ato sexual “pervertido”. Green (2000) se refere ao carnaval como os quatro dias do ano em que tudo é permitido, onde gays podiam expressar-se livremente. Durante esse período do ano se tornam abundantes os bailes dos travestis, onde homens vestidos de mulheres reinavam. “Nos anos 1950, o Baile das Bonecas, no Rio atraia um público internacional... que vinham assistir homens em plumas e paetês competirem à coroa de Deusas Glamorosas das celebrações carnavalescas” (GREEN, 2000). A busca pelo prazer associou-se de maneira costumeira à prostituição (PEREIRA, 2015) e “os espaços onde brilhavam as pantomímicas[2],... que no Rio de Janeiro ficavam no entorno do Largo do Rossio (atual Praça Tiradentes), mesmo antes de 1870, era identificado como espaço de circulação homoeróticas” (BRAGANÇA, 2019).
Esses espaços de socialização foram crescendo a e já entre os anos de 1920 e 1930 casos relacionados a condições não heteronormativas, o comportamento feminino e homossexual seriam considerados condições médicas. Os anos de 1960 trouxeram com o golpe militar uma ampliação dos fatores de perseguição, preconceito e punição a doença homossexual a partir da visão de uma comunidade cristã em defesa do capital... As forças policiais perseguiam travestis e fechavam pontos de prostituição e espaços de socialização em favor da moralidade e da higienização desses espaços. (PEREIRA, 2015). De acordo com Green (2000) o fator sexual foi menos importante nas perseguições políticas do que o posicionamento ideológico e político. Bares que mantiveram espaço para socialização gay iniciaram os shows de travestis, com apresentações de teatro.
A revolução de Stonewall em Nova York chegou na américa latina mas foi barrada nas fronteiras brasileiras pela repressão militar, impossibilitando a formação de um movimento gay nacional, porem criaram um florescimento de cenas culturais sexualmente expandidas nas grandes cidades (BRAGANÇA, 2019). Em meados dos anos de 1970, com o início do declínio do poder militar, grupos de militância se reorganizam. Estudantes, trabalhadores, mulheres e negros mobilizaram diversas ondas de oposição ao regime e auxiliando no processo de abertura gradual (GREEN, 2000). Os “Dzi Croquetes”, ocupam a cena carioca com apresentações andrógenas, usando barba e batom, implodindo os conceitos de papeis sexuais. Não se diziam engajados à causa gay, apenas defendiam a liberdade de expressão e mesmo sem uma apresentação teatral linear, tornaram-se um marco para a libertação gay seguinte (MORENO, 2001).
Empiricamente, insisto aqui em questionar os fatores religiosos frente as dificuldades de aceitação de diferentes identidades. “A censura moralista do governo militar limitava referências a homossexualidade na impressa... tornando a formação de um movimento político ‘gay’ no Brasil, impossível” (GREEN, 2000) e como já relacionado por Green (2000), a perseguição de gays por posicionamentos ideológicos superava à sua sexualidade. Enquanto gays atores apresentando espetáculos para gays, ou segundo Moreno (2001), “gays que entram em cartaz como mais uma peça gay que entra em cartaz. Peças de homossexuais, para homossexuais, com aquelas coisas que só homossexuais entendem”, termos que eram referências para o público, não afetassem o tradicionalismo heteronormativo cristão, não haeria problemas. Consideradas como “arena de lutas pelos direitos humanos” (MORENO, 2001), muito mais que uma boa peça de teatro. Relativo a isso, José Vicente de Paula (1945-2007), dramaturgo iniciante no final dos anos de 1960 teve seu espetáculo censurado, e apesar das citações moralistas de homossexualidade em cena, alguns trechos da peça nos levam a acreditar que muito mais fortes para a censura sexual foram os fatores de pragmatismo religioso:
“Num primeiro plano, como quer José Vicente, “Santidade” expõe a vida de michê com a devida mácula cristã. A prostituição masculina está aquém da retidão divina. Mas o autor transcende o tema. A peça também expia a noção de pecado segundo o peso da crença católica. Mais: avança para dentro mas de uma juventude vivida das relações humanas no que elas têm de superfície e essência.
Há 30 anos, quando o então presidente Costa e Silva censurou “Santidade”, em seu ataque de moralidade cívica, ele provavelmente se ateve a algumas frases de impacto que, não necessariamente, refletem o âmago da história. Por exemplo: “O Cristo morreu sufocado; a Igreja matou Cristo!” – é uma das sentenças espulmantes que saem da boca de Arthur, o personagem-vértice da peça. “Eu não acredito em santo sem esperma!”, continua. Mais: “O Deus da juventude está morto!”.” (SANTOS, Valmir. O Diário de Mogi. 1997)
O espetáculo “Santidade” se distancia deste trabalho quando narra um espetáculo feito para os palcos italianos tradicionais por atores indistintos de orientação ou identidade sexual, apesar de, para Tibaji (2017), que inicia seu texto dizendo que o teatro abriga, seja na vida real, seja entre seus profissionais, um refúgio para a diversidade sexual. Dicotomicamente se aproxima quando trata da cena homossexual, mesmo fora do “gueto gay” (PEREIRA, 2015), trazendo aos palcos uma realidade ficcional que tarja a vida de excluídos sociais devido as suas escolhas e declinações religiosas frente as suas orientações sexuais. O que mais reflete a presença marcante do preconceito religioso surge no fato de que em 1968 uma peça que narra
“...sobre um ex-seminarista, que, vivendo em São Paulo às custas do amante, recebe a visita do irmão que está para ordenar-se padre, colocando em xeque sua vocação religiosa. A montagem que teria direção de Fauzi Arap e produção da atriz Tônia Carrero, é censurada pelo marechal Costa e Silva em 1968, declarando em rede televisiva que aquele era "o exemplo de espetáculo que jamais seria encenado no país.” E logo no ano seguinte a estréia de José Vicente no teatro acontece em 1969, com a montagem de O Assalto pelo Teatro Ipanema, com direção de Fauzi Arap e atuação de Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque. A peça obtém sucesso imediato, projetando o nome de José Vicente na dramaturgia brasileira, ao lado de Leilah Assumpção, Isabel Câmara, Consuelo de Castro e Antônio Bivar. Esses autores, com linhagens diversificadas, devassam a intimidade de suas personagens, levando o conflito às últimas conseqüências. Temas como religião, homossexualidade e drogas são tratados com enfoque existencial e subjetivo, com diálogos que beiram o absurdo. O texto enfoca o problema da prostituição masculina em que o bancário Victor assedia moralmente o faxineiro Hugo após o expediente. José Vicente é agraciado como melhor autor de 1968, com os prêmios Molière, Golfinho de Ouro e Associação Paulista de Críticos Teatrais, APCT”. (Enciclopédia Itaú Cultural)
Outro autor que discorre sobre questões de identidade é Coelho Neto, que tem seu texto “O Patinho Torto”, que faz referências a travestis, censurado nos anos 1920, mas liberado em 1964 (TIBAJI, 2017) . Esse texto narra a história de uma moça de família que ao completar 18 anos descobre que é homem. Criado desde seu nascimento como menina e usando roupas de menina, ao se consultar com um médico lhe é revelado que ao nascer houve um erro em seu registro. Baseada em uma notícia de jornal, não faz referências religiosas a não ser que toda sua família é extremamente pudica e que a situação perturba a todos. A comicidade da peça não lhe trouxe prêmios nem elogios públicos de crítica. Nelson Rodrigues em sua literatura aborda o sexo em suas obras e vez ou outra adentra no universo LGBT, como nos textos “Album de Familia”, “Toda Nudez Será Castigada” e “O Beijo no Asfalto”, assim como Oswald de Andrade também cita esse universo em “O Rei da Vela”.
E desse tempo, assim como as tragédias gregas, muito há de se achar em gavetas escondidas, estantes empoeiradas de bibliotecas ou mesmo em cinzas não mais legíveis. O que realça a necessidade de se apresentar ao mundo as diversas identidades vistas por autores de identidades diversas. Tem-se aqui a necessidade que a arte e o conhecimento nos impõem. Deixar fluir o pensamento e o registro, seja visual, seja comportamental é uma necessidade que a criatividade regala ao artista. O teatro em seu aspecto mais profundo de criar reflexões, de ensinar, de ato político de resistência e de resignação em vários momentos assumiu seu papel nas mãos de autores e nos corpos de atores. As lutas pelas igualdades que se iniciam no Brasil com a diluição da ditadura dão créditos ao passado, vazão e visibilidade ao presente e esperanças ao futuro. Aqui começa a “primeira onda” (FACCHINI, 2003) de igualdades entre as identidades diversas e ao não binarismo sexual.


BIBLIOGRAFIA
FACCHINI, Regina. Movimento Homossexual no Brasil: Recompondo um histórico. São Paulo: Universidade Estadual de Campinas, 2003.
BOMFIM, Silvano Andrade do. “homossexualidade, direito e religião: da pena de morte à união estável. A criminalização da homofobia e seus reflexos na liberdade religiosa”.  Revista Brasileira de Direito Constitucional – RBDC n. 18 – jul./dez. 2011 retirado de http://www.esdc.com.br/RBDC/RBDC-18/RBDC-18-071-Artigo_Silvano_Andrade_do_Bomfim_(Homossexualidade_Direito_e_Religiao_da_Pena_de_Morte_a_Uniao_Estavel).pdf em 30 de maio de 2020.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. “BIOGRAFIA: José Vicente de Paula”. Retirado de http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359451/jose-vicente em 31 de maio de 2020
SANTOS, Valmir. TELEJORNAL Diário de Mogi. Retirado de https://teatrojornal.com.br/1997/11/santidade-transcende-culpa-crista/ em 31 de maio de 2020
GREEN, James N. “Mais amos e mais tesão: a construção de um movimento brasileiro de gays, lésbicas e travestis”. Cadernos Pagu. 2000
MORENO, Newton. “A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro”. III Congresso de Cultura e Homoerotismo: UFF. 2001
TIBAJI, Alberto. “Apontamentos e reflexões sobre as relações entre teatro no Brasil e diversidade cultural”. O eixo e a roda, Belo Horizonte, v.26: Universidade Federal de São João Del Rei, MG. 2017
FERREIRA, Rhanielly. “Fora do gueto: o processo de formação da 1ª onda do movimento gay no Brasil”. Emblemas – Revista da Unidade Acadêmica Especial de História e Ciências Sociais – V. 12: UFG\CAC. 2015
BRAGANÇA, Lucas. “Fragmentos da babadeira história drag brasileira”. Revista Eletrônica de Comum. Inf. Inov. Saúde: UFF. Niterói – RJ. 2019
BORTOLOZZI, Remom Matheus. “A arte transformista brasileira: rotas para uma genealogia decolonial”. Quaderms de Psicologia – V. 17, nº 3, pág 123 – 134: UERJ. RJ. 2015



[1] Homem ativo (que penetra) que tem relação sexual com homem passivo (que é penetrado).
[2] Tipo de performance de canto e de realização de pequenos papeis cômicos que envolviam a personificação feminina (BRAGANÇA, 2019)



quarta-feira, 27 de maio de 2020

Sociedade NÃO TÃO Secreta das bYXXXas



Ao longo da década de 1980 na cidade de Vitória, grande parte dos grupos de teatro em atividade no período tinha em sua composição ativistas gays e simpatizantes. Em sua maioria conhecidos, de alguma forma, na região e muitos até mesmo no estado. As manifestações artísticas, em especial o teatro, eram amplamente divulgadas nos jornais de grande circulação, principalmente porque ocupantes dos grupos teatrais faziam parte do quadro de jornalistas. Os artistas do período tinham ocupações nos ramos da comunicação, o que facilitava o acesso aos veículos midiáticos. Wilson Nunes, Milson Henriques, Alvarito Mendes Filho, Milton Neves eram todos funcionários das emissoras de rádio e televisão da capital e responsáveis por grupos de teatro e espetáculos em cartaz. No andar de cima da Boate Eros se localizava o ponto de encontro desses e outros grupos de teatro.
Situada em uma das ruas do tão visitado Parque Moscoso, a boate tornou-se local de encontros amorosos e de outras formas de sociabilidade da comunidade homossexual desde a sua fundação no final dos anos 1980 até seu fechamento em meados da primeira metade dos anos 2000. Para entender a importância desse espaço, é necessário compreender que o contexto político brasileiro a partir de meados dos anos 1980 – marcado pelo processo de abertura democrática - é contraditório. Por um lado, há pessoas tentando se livrar de todos os maus agouros da ditadura, denunciando ou sofrendo suas consequências. Por outro lado, há outras pessoas recordando saudosas da disciplina que mantinha a “ordem” e os “bons costumes”, colocando cada tipo de cidadão em seu lugar social e mantendo uma forçada disciplina. Dentro da Boate Eros, porém, os preconceitos eram substituídos por uma maior liberdade. Apesar de toda repressão política e social e da grande incidência de preconceito, apesar das batidas policiais recorrentes na boate, o local ainda acolhia a diversidade artística como em nenhum outro lugar.
O movimento gay da época ainda estava em fase inicial de organização na capital capixaba. Em sua maioria, eram grupos que satirizavam as questões políticas, mas não tinham organização social como base além do grupo de teatro e das performances transformistas individuais. Embora a diversão pessoal fosse um importante motivador para esses grupos de teatro, seus artistas também estavam intuídos do desejo de apresentar para o público uma realidade vivida por muitos deles dentro de suas vidas. Esses grupos aparentemente não tinham como intenção inicial transformar concepções sociais mais amplas sobre gênero e sexualidade, apenas querendo compartilhar que as orientações sexuais diversas estão em qualquer lugar. Apesar dessa possível ausência de intencionalidade, uma transformação política que está “entre” o mundo real e o ficcional ocorre naquele período com o fortalecimento das identidades gay.  
Essa pesquisa trata do tema da formação da identidade gay a partir de um recorte específico, feito na capital do estado do Espírito Santo (ES), entre os frequentadores da Boate Eros, local onde aconteciam, além das noitadas de discoteca, shows de transformistas e apresentação de espetáculos de teatro, em sua essência, dentro da temática gay. Nesse local, o ativismo era forte, frequente e recorrente, o que nos leva a crer que a “performance artística”, que segundo Bonfitto (2013) é uma forma potente de engajamento social e político, tem sua parcela de influência na formação da identidade gay de seus frequentadores. Dessa maneira, sugerimos que a construção de identidades gay e o enfrentamento a discriminação por orientação sexual no âmbito familiar e na comunidade eram em alguma medida embasados nas relações sociais que se fortaleciam a partir da participação desses indivíduos nas atividades da boate, seja como ativistas artistas, seja como ativistas públicos.
Exemplos de performances artísticas fortemente engajadas e relacionadas às identidades gay, podem ser observados em espetáculos teatrais que englobavam tais temas. Seus textos eram fictícios, contados em forma de comédia, usadas para divertir um público que vivia situações aproximadas daquelas contadas no texto. Muitas situações refletiam vontades, mas não necessariamente uma realidade. Dois exemplos distintos foram espetáculos incentivados por Wilson Nunes, artista ativista que tinha muita influência entre jovens iniciantes no teatro. Dentre outros nomes, Wilson Nunes foi um grande propagador das artes performáticas e teatrais dentro da Boate Eros e no mercado artístico da região. Sua personagem Najla Paquetá era a apresentadora dos eventos que aconteciam na boate além de dublar e cantar ao vivo músicas das musas Clara Nunes, Elis Regina e Alcione. Em sua carreira artística participou de inúmeras montagens teatrais, sendo a primeira um espetáculo que ficou conhecido pelo mundo e provavelmente deu-lhe o impulso para a consagração na classe artística teatral. A montagem do espetáculo “Os gatos do beco” de autoria de Alvarito Mendes Filho, não tinha relações com a comunidade gay ou o ambiente da boate além do fato de que os ensaios e encontros artísticos acontecerem na mesma em horários em que não funcionava. Outros textos do autor, no entanto, estavam fortemente relacionados à identidade gay.
Um texto de autoria do próprio Wilson, “Minha Sogra 44”, ilustrava bem os relacionamentos hétero e homossexuais dentro de um mesmo ambiente, que como faziam parte de uma mesma família, se aceitavam de forma natural e normal. Mas ao decorrer da história entra em cena um personagem heteronormativo que não estava “acostumado” com as situações daquela família “diferente” dos padrões da sociedade daquela época.
Outro espetáculo, que fez tanto sucesso a ponto de se manter em cartaz durante muitos anos tendo várias sequências, foi “A Perereca da Marly”, escrita por Milson Henriques, que narra a história da personagem de tirinha de jornal criada pelo próprio Milson, cartunista de jornal de grande circulação no estado. Os personagens principais do espetáculo eram mulheres, mas os atores eram homens, que ficaram consagrados e conhecidos pelas personagens. Marly, representada por José Luiz Gobbi, chegou a ser ala de escola de samba no estado. Em decorrência do espetáculo, Gobbi ficou mais conhecido como Marly do que como qualquer outro personagem que ele tenha feito (se fez, ficou esquecido).
Cabe mencionar ainda, um terceiro exemplo, o espetáculo “Por Favor Matem Minha Empregada” escrito pelo servidor federal Edilson Pedrini, que tinha como estrela o ator Wilson Nunes, que se travestia da personagem Melanie Marques. A personagem era conhecida na Boate Eros como aquela que assumia o controle das apresentações da casa construindo uma performance que durava a noite inteira chamando os shows, apresentando números performáticos (muitas vezes cantado ao vivo) que traziam para a casa um grande número de expectadores que já haviam se tornado seus fãs.
Além dos espetáculos teatrais, a Boate Eros contava, ainda, com espetáculos de transformistas. Os shows de dublagem agitavam o público de várias maneiras. Alguns dos transformistas traziam em seu repertório músicas do pop internacional da moda. Divertiam a elite burguesa com a interpretação das músicas que faziam parte de seu repertório cotidiano. Outros reviviam grandes clássicos da música romântica internacional. Alguns, ainda, levavam para o palco os clássicos da MPB e do samba, músicas que fizeram uma geração protestar, lutar por direitos e criar movimentos que ficaram marcados por essas canções.
Suas performances criticavam ou enalteciam pensamentos sociopolíticos, desejos e anseios daquele e de outros grupos da sociedade brasileira. Um trabalho que ia muito além de uma dublagem musical. Uma performance que sugeria, através de seu comportamento corporal, de seu figurino, de sua maquiagem, dentre outros elementos, um ato de revolta, de insubordinação e de transformação. Alguns performers transformistas da boate foram consagrados tanto na comunidade gay quanto na sociedade em geral, seja nas profissões até então cabíveis apenas para homossexuais – cabeleireiros, maquiadores, atores – seja no empreendedorismo, no ativismo em movimentos sociais ou na política institucional. Nomes como Tarsilla Open, Bianca Castelli, Denner, Lauren Dollar, Mery Ofidê Relpi, Dayse Lilica, Miss Linda, Pâmela Castilho e Chica Chiclete foram marcantes na boate e são personalidades muito conhecidas hoje no cenário capixaba.
Ao subir no palco, essas artistas vestem uma “máscara”[1] que pressupõe estudos e entendimentos daquele personagem que ele está representando. Nos shows da Boate Eros, cada ator ou performer se entrega de maneira única. Os transformistas em suas performances são cada um, a sua maneira, personagens diferentes. As relações entre suas personagens e suas identidades sociais fora do âmbito da Boate Eros eram diversas.
Exemplos são Bianca Castelli, transformista, mulher trans, maquiadora. Suas experiências na sociedade são colocadas no palco a partir de seus talentos e suas performances externas. Tudo influencia na sua composição e na diferenciação de seu personagem aos dos outros. Bianca se apresenta como Bianca e é conhecida na sociedade como Bianca. Diferente, mas não distante, temos as performances de Chica Chiclete. A personagem é vivida pelo transformista conhecido fora do âmbito da boate como Francisco Spalla. O empresário chegou a ocupar cadeira no legislativo. Sua eleição se deu a partir da fama e do sucesso que Chica tinha na comunidade. Mas quem assumiu o cargo foi Francisco. Já Ângela Jackson era atriz muito mais que transformista. Suas performances não eram só os shows de dublagem. Ela cantava, contava com um coro de dançarinos e criava cenas teatrais no meio do show. Ângela é animadora de festas e só nas festas tem esse nome. Em sua vida social, fora do mundo das artes, Rodrigo é homem, gay e trabalha em repartição pública, sem maquiagem, sem saltos, sem peruca.
Analisando esse cenário, essa pesquisa está teoricamente fundamentada em uma revisão da literatura sobre a história do movimento LGBT no Brasil e sobre o conceito de “performance teatral” de Matteo Bonfitto, este último que trata do campo artístico. Do ponto de vista metodológico, essa investigação buscará descrever as performances teatrais em espetáculos teatrais e de transformistas ocorridos nessa boate no período de sua existência (final dos anos 1980 e início dos anos 2000) buscando compreender como essas performances tensionaram identidades de gênero e contribuíram para a formação da identidade gay de seus artistas e frequentadores. Assim, o problema de pesquisa que esse projeto propõe pode ser resumido da seguinte forma: quais são as relações entre as performances teatrais realizadas em espetáculos teatrais e shows de transformistas na Boate Eros e a formação da identidade gay na Grande Vitória entre o final da década de 1980 e o início dos anos 2000?
Essa pesquisa se mostra viável, já que o acesso a entrevistas é fácil devido à proximidade do pesquisador com essas pessoas. Fui frequentador assíduo da boate, principalmente nos anos de 1990. Como possuía um ambiente gay próximo à boate, a frequência era fácil. Participava da sociedade sem lucros de uma sauna que era um ponto de “esquenta” para alguns frequentadores da boate. Fazia parte de um grupo de teatro, mas que não tinha apresentações na boate, porém sempre estava presente enquanto expectador. Possuía uma ligação muito forte com os artistas que faziam parte, tanto do grupo de teatro, como das transformistas que executavam os shows da noite. Durante um tempo participei dos concursos de “Garoto Eros” e auxiliei na produção de alguns dos shows de transformistas.
Ademais, existe um acervo particular audiovisual de muitas noites da Boate Eros que registraram desde a preparação da noite, os shows, alguns espetáculos de teatro até a despedida da noite, com luzes acendendo, sol nascendo e muitos depoimentos de gays e travestis que participaram enquanto público, atores ou transformistas que fizeram os shows da casa. Além do trabalho acadêmico, essa pesquisa tem como objetivo, ainda, fundamentar a construção de um espetáculo teatral que irá ilustrar esse período histórico.


[1] Máscara como conceito que Eugenio Barba descreve como quando o ator define uma estética ou escola teatral a seguir e se utiliza de suas ações cotidianas para preencher lacunas de expressões, sentimentos e sensações dadas ao personagem interpretado (BARBA. 1995).

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Clipping: INSANOS "O PESADELO DO TERCEIRO MILÊNIO"



























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INSANOS
Um Devir Psicótico que transforma as ilusões e as realidades...
O texto de Anderson Lima é um ensaio sobre a esquizofrenia com nuances de um terror vampiresco. Um ser "nonsense" que em suas alucinações acredita que Deus o escolheu para ficar em seu lugar... Psicopata assassino e paranoico passeia por seus delírios regados de sangue e morte enquanto narra sua infância problemática e escreve um novo livro de Leis espirituais que ele chama de nova Bíblia baseada em suas teorias de certo e errado. As sombras que o perseguem e as vozes que ecoam em sua mente o direcionam em sua jornada de sublimação divina. O autor se apropria de trechos Santos e profanos em alguns momentos o que tornam a experiência da atuação mais tensa e marcante. A crença do personagem de que tudo que ele faz está autorizado por um Deus que ele "ilusiona" como material em feitiços e orações lunáticas criadas para a invocação de um "big bang" em seu interior, o faz aterrorizar enquanto clama pela atenção do público.

INSANOS – Um mergulho visceral na mente fragmentada

resenha crítica por Anderson Lima

Por mais de uma década, INSANOS tem sido um dos espetáculos mais marcantes do teatro capixaba. O monólogo, escrito e interpretado por Anderson Lima, não apenas expõe os dilemas de uma mente atormentada pela esquizofrenia, mas também convida o público a uma jornada sensorial e emocional profunda.

A peça se destaca pela intensidade da atuação de Lima, que entrega uma performance visceral, alternando momentos de lucidez e delírio com uma precisão impressionante. O texto, fruto de extensa pesquisa e vivência, carrega um peso dramático que se reflete na recepção do público—muitos saem da apresentação visivelmente emocionados.

A direção e a ambientação contribuem para a imersão, utilizando efeitos sonoros e iluminação para amplificar a sensação de inquietação e desorientação que permeia a mente do protagonista. A escolha de trechos santos e profanos no discurso do personagem adiciona uma camada de complexidade, tornando a experiência ainda mais densa e reflexiva.

O espetáculo não apenas entretém, mas provoca debates sobre saúde mental, sociedade e identidade. A esquizofrenia, muitas vezes estigmatizada, ganha um olhar humano e sensível, permitindo ao público enxergar além dos sintomas e compreender a profundidade da condição.

Com apresentações em diversos festivais e teatros, INSANOS se consolida como uma obra essencial para quem busca um teatro que desafia, emociona e transforma.

Se quiser que eu refine algum aspecto da resenha ou acrescente detalhes específicos, me avise! 🎭🔥






Serviço:
texto, atuação e direção de Anderson Lima
data: 11 de maio de 2016
horário: 20 horas
Local: Teatro Universitário da UFES
Produção: "JC Produções"
contato: José Celso Cavaliéri - 999 087 044

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Web Vídeos para jovens e Adolescentes do Ensino Fundamental

Felipe Neto, Whinderson Nunes, Christian Figueiredo – Eu Fico Loko, Parafernalha, Porta dos Fundos... Nomes conhecidos por internautas no Brasil e no mundo... Porque falam sobre atualidades ou notícias que os internautas se identificam. Fazem sátiras ou críticas. Transformam tudo em comédia e tiram risos de tudo...
Adolescente, jovens, crianças, adultos... Não existe idade para gostar desses canais que transformaram essas pessoas em celebridades em tão pouco tempo. E quem descobre a fórmula consegue atingir o público bem no "alvo do sabor", do saber ou da futilidade cômica. Não dizendo que o cômico seja fútil, nem que a informação seja inútil, pois cada canal é direcionado a um tema ou interesse diferente.
Ao questionar os alunos de uma escola da rede pública municipal sobre as preferências de temas, a variedade foi surpreendentemente enorme... Orientação para joguinhos de x-box, capítulos de novelas, críticas de filmes e livros, dicas de maquiagem entre muitos outros temas.
Lancei então a proposta da criação de um canal onde postaríamos um vídeo de cada aluno, orientando a todos sobre postura de câmera, interpretação para vídeo, edição simples em programas gratuitos, além do auxílio na escolha do tema, da realização do roteiro, iluminação, arte e sonorização. Enquadramento e os vários tipos de efeitos e planos de filmagem.
 “O homem não é uma ilha. É comunicação” (FREIRE, 1979, p. 28), mas como comunicar, como dizer o que se quer dizer se não se é artista, ou crítico, ou jornalista... Ou ainda se não se tem os equipamentos necessários para uma produção de vídeo, ou uma produção de um filme.
A ilusão da fama ainda é um "mal que assola" a mente da juventude. Esses blogs, vlogs, "Frozen's" de famosinhos, que foram picados pela febre do Stand Up, são bons pela criatividade e pela improvisação, e até pelo incentivo que dão aos outros de terem suas redes sociais... Mas daí esbarramos no grande problema que são os temas escolhidos para serem discutidos. Há momentos em que eu assisto a um vídeo e só assisto de novo para ter certeza do que vi. Acho inacreditável que "tanta gente" tenham visualizado algumas coisas e tenham curtido... 
Então resolvi fazer uma pesquisa junto aos alunos sobre temas pertinentes a eles. Tipo, surgiram temas referentes a jogos, novelas, maquiagem, namorados... então pensamos em começar fazendo uma enquete... A primeira filmagem, agendada para a primeira semana de novembro será sobre as preferências dos alunos, sobre o que eles gostariam de falar e de ouvir em vídeos na web... Será uma conversa descontraída com todos os alunos interessados em publicar vídeos na escola.

EM CONSTRUÇÃO

sábado, 10 de outubro de 2015

ATIVIDADE PERFORMÁTICA - Esperando Godot

ESPERANDO GODOT



Esperando Godot
Uma performance Art realizada pelos alunos do curso de Licenciatura em Artes Cênicas da UVV para a disciplina de Direção I ministrada pelas professoras Rejane Arruda e Lara Couto.
A atriz performer Rafaela Conceição ficava sentada em uma mesa de jantar esperando por companhia, no meio de um ponto de ônibus... Olhares curiosos, comentários diversos... Tempo restrito... Difícil acreditar em um jantar oferecido de graça, tão fácil, acessível,... Perturbador comer com um estranho? Em um ponto de ônibus? No meio da Rua?

A performance trouxe aprendizados além do esperado de um trabalho artístico. Começamos com o atraso do transporte e durante a espera começamos a perceber pequenas "coisinhas" faltando. Ao chegar o transporte nos dirigimos para o Terminal de Vila Velha, fato que nos trouxe decepção... Não poderíamos realizar o trabalho no recinto sem prévia autorização. Foi uma comoção geral... então eu sugeri que nós fôssemos para a Praça Duque de Caxias, perto dali.

Conversando com a Rejane, falamos sobre imprevistos que acontecem e improvisos aos quais estamos suscetíveis. Nos encontramos no paradoxo da performance, Deixar que o primeiro problema nos atrapalhasse seria oposto ao que construímos enquanto "sugestamos" estar procurando soluções rápidas. A performance não tem um fim definido, mesmo que tenhamos um objetivo, 'tudo depende de tudo'. Fomos todos para a Praça!

Deparamos com um deserto em plena atividade. Solidão total, fazendo o Centro da Cidade ter jus ao título de "Cidade Dormitório". Sem comércio, sem transeuntes, sem movimentos... A única luz vinha de uma barraquinha de sanduíches, ou dos postes no meio da praça. Decepcionante, e com evidente frustração todos queriam voltar sem fazer nada. Segundo o performer curitibano Fernando Ribeiro os elementos básicos da performance são o corpo, a ação, o público, o tempo e o espaço. 


Tínhamos quase tudo, menos o público. E mesmo o nosso tempo estava ficando escasso. Depois de um impasse rápido decidimos montar a mesa no ponto de ônibus, no asfalto, E o público apareceu, como em um passe de mágica. É como se a terceira cajadada de Molière trouxesse a tona o público. Não eram muitos, mas já dava para iniciar o trabalho. Comecei a montar os pratos... A performance consistia em a atriz Rafaela sentar à mesa com dois pratos servidos esperando que alguém se juntasse a ela para uma refeição e um bate papo. O cardápio era tentador, eu mesmo realizei o menu composto de um fricasse de frango com batatas sauté, arroz e salada de cenoura com aspargos em uma das refeições e outra feita com arroz e um rosti de palmito com bacalhau desfiado, salada colorida e purê de batatas com cream cheese. O aroma invadiu o ponto de ônibus e logo tivemos uma voluntária... Estava no horário de saída de uma escola estadual (Vasco Coutinho) e uma das alunas se propôs em fazer companhia a atriz. Foi satisfatório ver as duas em uma conversa como se o mundo delas fosse aquele, como se o que estava acontecendo ao redor não pudesse afetar em nada o diálogo, nem mesmo os coletivos parando e abrindo as portas, pessoas passando ao lado e comentando. O público foi dos que esperavam o seu ônibus aos que passavam dentro dos carros na pista. Quando as colegas de sala da nossa voluntária saíram, passaram por ela zombando por ter saído mais cedo e ainda estar por ali e ela respondeu que elas estavam atrapalhando a conversa.



A equipe de apoio foi extremamente necessária, porém percebemos que algumas ações e atribuições devem ser definidas previamente, para não haver conflitos e falhas. Enquanto acontecia o diálogo com a primeira voluntária do público, comecei a montar o segundo prato, e para minha frustração, houveram alguns problemas... A turma é bem íntima e se concentra no momento da ação, mas ainda há dispersões nos casos de pausa. Os pratos estavam incompletos, o primeiro planejamento teve que ser modificado, pois a equipe não resistiu ao aroma da refeição e desfez o quantitativo da montagem... Talvez a modificação dos pratos não alterassem na intenção da proposta, mas interferiria na sensação do paladar e na expressão do "sentimento gustativo".

Sentou então a segunda voluntária do público, que elogiou o trabalho e disse que deveria acontecer "coisas assim" mais vezes. Notei que ela se sentiu atriz ao se sentar com a performer Rafaela, fazendo pose, usando gestos coordenados e um diálogo mais cênico do que natural, e isso reflete uma real necessidade de mais eventos culturais acontecendo. Ao final ela, "Monia", fez um breve depoimento sobre as sensações que ela imprimiu da performance. Registrar o depoimento de participantes ou até mesmo de ouvintes ou espectadores nos remete ao resultado que queremos ou tivemos. Mas o registro da fala sobre o sentimento não exprime o sentimento em si. Acredito que durante o processo, a "Monia" registrou muito mais sensações do que ela exprimiu em seu relato e apenas se fosse feito um registro com uma câmera fixa alguma coisa poderia ser capturada. Mas qual a função da performance senão o ato em si, sem necessariamente ter importância esse ato. Sentar à mesa se torna tão importante quanto olhar de longe. Porque fica a reflexão sobre a performer que está no lugar de esperar alguém, que ela não conhece e que provavelmente vai lhe trazer algum novo conhecimento, informação ou apenas um simples diálogo. Assim como em "Esperando Godot", onde pessoas, provavelmente insanas, esperam alguém em algum lugar, sem saber necessariamente o motivo.

Desta vez o jantar foi o gatilho de convite, mas muitos outros artifícios podem ser usados para uma aproximação de seres desconhecidos que passam a ter reflexões em comum sobre algo que elas talvez nem supunham conhecer. Esperamos Godot's, José's, João's, Maria's, esperamos contato. Por afeição ou por estranhamento, cada um se aproxima por um motivo, convidado ou não. Um rapaz que estava no ponto e filmou uma parte da ação pelo celular mostrou interesse em se sentar, mas quando convidado disse que teria vergonha. Outra senhora disse que era para deixar para os mais jovens. Muitos jogavam o convite de um para o outro, mas ficava perceptível que todos tinham interesse.

Exaltando Anton Tchekhov na expressão em que diz que há dois tipos de arte, as que gosto e as que não gosto, digo que este trabalho me foi prazeroso desde sua concepção. Escolhi o cardápio e o "empratamento". Realizar um trabalho que vai instigar o público a participar ativamente da obra. O público tem que se dispor a cooperar, e estar propenso ao prazer ou ao desagrado. Não ter a certeza da aceitação perante o estranhamento, o que deveria afastar está na posição de aproximar. Perceber o medo ou a timidez perante uma ação em que o público se transporta para o centro das atenções, pois a atitude é dele, ele tem que chegar e participar de uma atividade que pode ser cotidiana mas em um local totalmente avesso à condição de natural. Sentar-se à uma mesa para um jantar à La Carte num ponto de ônibus pode provocar desejo de experimentação em alguns, ou medo de participação em outros. Gostaria de realizar novamente este trabalho em locais distintos, com públicos diversos e registrar não só a participação daqueles que escolhem se aproximar e participar, mas também daqueles que se mantém distantes. Entender os por quês, os para que e os prazeres e desprazeres de todos envolvidos, público e artistas (performances, equipe de apoio e voluntários)

Sinto uma necessidade latente de uma maior organização antes de promovermos outra ação. Uma distribuição de tarefas com antecedência e um maior empenho de todos na participação. Lembrar que quando há a necessidade de uma equipe de apoio, esta é tão importante quanto o artista performe que estará atuando. Todos somos ramificações do trabalho. Tiro por exemplo a ação da Ana Paula que teve que negociar com uma moradora de rua que havia se apossado indevidamente das sandálias da Rafaela enquanto todos estavam distraídos.

(EM CONSTRUÇÃO)

domingo, 4 de outubro de 2015

ATIVIDADES PERFORMÁTICAS - TIRÉSIAS - HAPPENING

Turma AC4N

Título: "Tirésias"

Tirésias, profeta grego do oráculo de Apolo na Cidade de Delphos... Cego. Famoso pelos escritos de Sófocles nos livros que contam as histórias de Édipo e na Odisseia de Homero. Em Édipo, Tirésias é o cego que tudo vê contrapondo a Édipo que vê mas permanece cego aos fatos que o cercam.
O Happening é uma ação, inicialmente das artes visuais, onde o público participa da obra. Atores e plateia se misturam no trabalham e todos acabam participando de certa forma da construção do espetáculo ou do experimento. 
Para nossa ação tivemos como convidados os alunos de uma turma do curso de fotografia que se tornaram parceiros artísticos na performance. Preparamos o estúdio de filmagens com objetos e motivadores sensoriais. Tinham "coisas" espalhadas pelo chão (tecido, barbante, pipoca...), obstáculos distribuídos aleatoriamente pela sala e bastante gente em um ambiente totalmente escuro. Andar sem saber onde ou em que está pisando é uma sensação não frequente a quem tem visão perfeita. Ocorriam um misto de sensações e sentimentos que não se exprimiam em palavras, mas que causaram uma grande necessidade de se liberarem... Conforme andávamos nos trombávamos e trombávamos nos obstáculos. Cadeiras, cubos, paredes... Pessoas. E trombar em pessoas era uma das sensações mais estranhas. Buscamos descobrir quem estava em nossa frente nos tocando ou sendo tocados por nós. Sentimos a necessidade de ver de alguma maneira quem estava ali, conhecido ou não.
Quando encontramos alguém conhecido no meio da escuridão, assumimos certas liberdades que não aconteciam no contato com os "estranhos", até que todos começaram a se tornar um misto de amigos que estavam ligados pela mesma dificuldade. Nos tocávamos, nos percebíamos e interagíamos uns com os outros. Cada um no seu limite. Toques no rosto para reconhecimento, nos cabelos para saber se podíamos descobrir quem era. O som da voz por vezes era reconfortante, mas em momentos vinham acompanhados de uma terceira pessoa que estava perto, ou de algum objeto que tropeçávamos.
Andar no escuro, sem ter prática era uma tarefa difícil. Pisar em tecidos espalhados, pessoas deitadas no chão, cadeiras espalhadas, fios de barbante atravessados pela sala, perfume se espalhando pelo ar e sons... gritos... músicas... Cada um liberava de alguma forma o pequeno estresse que estava passando por não enxergar. Em certo momento um grupo deitou no chão e começou a se arrastar. Foi uma sensação instigante, eu sabia que assim não tropeçaria mais, porém, quem estava em pé andando poderia pisar em mim. Então tentei fazer meu trajeto apalpando os pés de quem estava perto para que eles soubessem que alguém estava passando por baixo deles.
Voltei a andar de pé, e agora eu comecei a tocar nos braços de todos que passavam por mim. As reações eram muito diferente. Alguns retribuíam ao toque, outros perguntavam quem eu era. Um tanto se afastava, pelo susto ao toque, ou pelo medo de estar no escuro com pessoas que não tinham intimidade. Um grupo que estava sentado começou a conversar e me estimulou a aproximar mais deles. Quando toquei no braço de uma das meninas tentei passar sua mão pelo meu rosto a reação dela foi de medo... Ela começou a falar que não era para eu mordê-la, e mesmo eu falando que não ia fazer isso ela puxou a mão e não permitiu o toque.
Começamos todos a cantar, assobiar, rolar no chão, massagear uns aos outros, conversar... Cada um tentou encontrou uma alternativa que diminuísse o medo do escuro. Mas o tempo passava de maneira muito lenta e eu comecei a me sentir incomodado com o tempo dentro da sala. Minha visão começou a se acostumar e o escuro já não era mais um fardo. Eu já conseguia distinguir as pessoas, e perceber os objetos na sala. Sentei em uma das cadeiras e comecei a ficar aflito pelo tempo que não acabava. Queria terminar logo, mas os outros estavam empolgados, cantando, rindo, interagindo. Se eu pudesse apressaria o relógio. E depois do que me pareceu uma grande noite os celulares começaram a despertar, concluindo nossa performance... A felicidade pelo trabalho concluído contagiou a todos, e chegou a hora de falarmos o que sentimos. Muitas sensações, emoções... Todas diferentes. Medos superados, amizades iniciadas, desejo de realizar novamente a performance. Cada um tinha um motivo para permanecer na sala, alguns queriam quietude e silencio no escuro... outros queriam barulho e agitação para suprir a falta da visão, outros queriam o toque amigo para simular uma segurança aparente que em momento algum foi ameaçada. Mas em unânime todos declararam ter emoções diferentes do seu cotidiano.


ATIVIDADES PERFORMÁTICAS - MEDUSA

Turma AC4N

Título: Medusa

Uma das Górgonas, filha de Fórcis e Ceto, a Medusa era uma bela sacerdotisa do templo de Atena, que foi estuprada por Poseidon. A Deusa não se compadeceu e castigou a górgona transformando-a em um ser abominável que ao simples olhar transformaria qualquer homem em pedra. A performance começou com a ideia de brincar nas faixas de trânsito, mas não brincadeiras comuns, era praticamente um jogo com o semáforo, uma disputa entre pedestres e carros onde o tempo de corrida é definido pelas cores verde e vermelho. Assim como a Medusa, um simples olhar, ou o som de um carro acelerando pode te fazer correr de medo ou paralisar.
A performance consistia em na hora que o semáforo fechasse para os carros, ao alunos/atores performáticos fariam a corrida do saco. A primeira corrida foi uma investida ceia de nervosismo, apreensão e medo. Ainda não tínhamos a noção do tempo que levaríamos para atravessar a pista, e se os carros esperariam nossa travessia. Tornou-se um misto de emoções para todos tanto participantes da corrida, quanto aqueles que estavam só olhando e até mesmo para os motoristas que estavam parados na faixa, que não sabiam se aquilo aconteceria apenas durante a luz vermelha ou se continuaríamos atrapalhando o trânsito mesmo na luz verde.
Assim a primeira parte da performance foi para experiência, um teste de tempo. Sentimos mais segurança a cada travessia e mesmo alguns motoristas ameaçando avançar o sinal com suas falsas aceleradas, continuamos confiantes e seguindo com o jogo no tempo do sinal, começamos a enfrentar o monstro que nos paralisa todas as vezes que temos que atravessar na faixa de pedestre de uma via muito movimentada. Então o grupo de atores resolveu mudar a brincadeira, tornando-a mais intensa. Vários jogos iam se intercalando no período da luz vermelha: morto/vivo, estátua, cabra-cega... E até uma parte de coreografia foi feito sob o símbolo representativo deste monstro que aterroriza a vida dos homens de um mundo arcaico nas histórias de Ésquilo, Píndaro, Ovídio, etc...
Se podemos tratar performance como um trabalho artístico didático, esta apresentação em questão nos trouxe algumas lições de respeito ao próximo, solidariedade e educação para o trânsito. Carros param em cima do espaço que é destinado a travessia do pedestre, outros que em um ato de impaciência aceleram, ou buzinam para pedestres que usam todo o tempo do farol pra fazer sua travessia, e ainda os ciclistas que não respeitam o momento de travessia do pedestre.
Realizamos mais de dez travessias divertidas com jogos, corridas, coreografias e brincadeiras que divertiram muitos, irritaram outros e em cada mudança na cor do farol uma nova emoção e mais uma lição. Aprendemos, compartilhamos, ensinamos e performamos.
Muitos trabalhos performáticos de cunho didático pedagógico são realizados para que pedestres e motoristas tenham uma melhor consciência de solidariedade no trânsito, muitos mostrando a necessidade de se atravessar na faixa, outros mostrando a responsabilidade de aguardar o sinal para a travessia, mas em nosso caso era apenas um jogo. Uma performance sem um motivo específico, sem uma lição previamente definida. Queríamos apenas jogar e brincar no tempo que nos era oferecido pela cor do sinal. Vermelho para os carros, início do nosso tempo de atuar, performar. E mesmo sem intensão, tiramos conclusões sobre a importância de uma boa educação e de ações voltadas para a educação no trânsito. E assim terminamos ali, mas não concluímos o trabalho... Surgiu a hipótese de irmos para outro lugar, e decidimos jogar morto/vivo no ponto de ônibus... Só para distrair.
Tinham poucas pessoas, mas foi o suficiente para notarmos algumas reações. Uma senhora se afastou do grupo assim que começou o jogo e comentou que ficou assustada, pois aquilo não era uma coisa comum de se ver. Alguns riam, outros simplesmente faziam de conta que nada estava acontecendo. E nossa proposta foi realizada... Queríamos jogar e jogamos. Não trouxemos aqui nenhuma lição de moral ou orientação para qualquer ação ou atitude humana. Apenas brincamos um pouco e terminamos saindo cada um para seu destino. Se não há necessidade de intensão prévia na performance, então nossos objetivos foram atingidos. Improvisamos e mostramos arte. E a cada trabalho realizado, mais nos aproximamos de um conceito mais aberto e amplo que não se define em palavras. Construímos conceitos imagéticos sobre um tema de discussão ampla entre muitos que tentam de uma forma ou outra definir esta arte que está em expansão no meio cultural.

Vídeo do trabalho: https://www.youtube.com/watch?v=SmDJ-m6vNEo









sábado, 3 de outubro de 2015

ATIVIDADES PERFORMÁTICAS - SANSÃO

Turma AC4N


Título: Sansão



Sansão é um personagem bíblico encontrado no livro de Juízes nos capítulos 13, 14, 15 e 16. Um nazireu de Deus que possuía muita força física atribuída ao comprimento de seu cabelo. Traído pela esposa Dalila, que contou a seus inimigos a fonte de seu poder, ele teve os cabelos cortados e os olhos furados. Acreditou que havia perdido suas forças, porém sua fé foi renovada e ele recuperou o seu poder.

filme dublado: Sansão e Dalila - https://www.youtube.com/watch?v=z_bcX88KF5U
A performance se resume em um cartaz "Corte Meu Cabelo", uma tesoura e uma pessoa sentada, a espera de alguém que voluntariamente se ofereça para cortar-lhe os cabelos. Parece uma ação simples, que em qualquer salão de beleza se tornaria banal. Mas é um trabalho artístico, uma ação, que mesmo sem intensão previamente definida, tem um cunho de instigação moral. Ter a liberdade de domínio sobre o outro, poder de tornar alguém submisso de alguma maneira. Eu ficava sentado esperando que qualquer um, profissional ou não, cortasse de qualquer maneira meus cabelos. No primeiro momento me senti nervoso e acuado devido a vários fatores que envolviam o ambiente. Estávamos em uma praça pouco movimentada, o que acarretaria em uma dificuldade na realização da ação performática. Após ter o cenário montado fiquei sozinho em cena, o que me causou uma aflição... Não estava preocupado com a forma que cortariam meu cabelo, estava preocupado se teria algum resultado. Comecei a perceber olhares curiosos para a faixa, mas vinham apenas dos comerciantes locais. Então a primeira mecha foi tirada, e nesse momento me transportei para o lado oposto ao palco... Me tornei espectador. Senti a vibração, quase me inteirei do sentimento que transbordava de quem vinha cortar meus cabelos.
Era uma proposta simples, cortar os cabelos, mas que trouxe diversos temas a tona. Questionaram se era uma ação social para portadores de algum tipo de enfermidade. Está na moda doar os cabelos ou cortá-los como forma de caridade moral aos portadores de cancer. Poderia até ser uma questão discutível, mas não fez parte das proposições da performance. A ideia principal era se tornar submisso de alguma forma. Deixar que fizessem o que quisessem. Dar o poder a outro de cortar, extravasar algum sentimento enquanto cortava os cabelos de outra pessoa que não iria reclamar do resultado.
Um rapaz que passava questionou porque eu deixaria que estragassem meus cabelos, então pegou a tesoura e com muito cuidado começou a tirar as pontas, o tempo todo conversando e me tranquilizando que não iria estragar, pelo contrário, faria um corte muito "maneiro". Mas teve que passar a tesoura para outro que veio e tirou uma boa parte, fazendo um corte que seria muito difícil de ser consertado. A reação do rapaz foi de surpresa e incredulidade. Outros que passavam diziam que nunca fariam aquilo. Deixar que qualquer um, desconhecido, sem formação, cuide, ou melhor corte seu cabelo. Como Sansão, algumas pessoas, principalmente as mulheres, ainda guardam sua força na aparência e o cabelo faz parte disso.
Na psicanálise existem diversas teorias simbólicas para a presença dos cabelos: São considerados fonte de poder mágico e por isso, o ato de cortar os cabelos e sacrificá-los significa frequentemente um renunciar e um renascer. O corte do cabelo ou da barba é frequentemente associado a um escalpo do ser humano, o que equivale a mudança de pele da serpente, um símbolo de transformação e desde a antiguidade o corte de cabelo (tonsura) estava ligado à consagração nos ritos de iniciação onde o sacrifício dos cabelos nos templos das deusas da lua, correspondia a uma evolução da prostituição sagrada, o seu simbolismo era de que entregando os cabelos, a mulher entregava o feminino à deusa. Anéis de cacho de cabelo guardados como lembrança, são tidos como amuletos que ligam uma pessoa a outra. Pela teoria da magia contagiosa, quem tiver de posse tanto de cabelos como de unhas humanas, pode exercer influência sobre a pessoa da qual os mesmos foram cortados. O cabelo é com freqüência associado à fôrça vital e ao próprio destino podendo ser considerado como uma imagem da relva, o cabelo da Terra. Na Rússia, somente às mulheres virgens era permitido que usassem uma trança grossa posto que após o casamento só poderiam usar duas tranças. A cabeleira encontra-se ainda relacionada à sensualidade e à provocação sexual.
Uma mulher questiona a atitude de alguém ter a coragem de estragar a aparência de outro. Ela diz não ter coragem de fazê-lo, que iria preferir estar no meu lugar ao ter que estar no lugar de quem estava cortando o meu cabelo. Disse também que mesmo sendo um ato que causava-lhe angustia, por ser um homem sentado ali ainda era menos perturbador que se fosse uma mulher. Comentou ser uma humilhação que uma mulher se sujeitasse a isso. Em tempos antigos mulheres tinham os cabelos cortados para distingui-las como prostitutas.
Ainda hoje, ao ver o vídeo do trabalho, reflito sobre quem era o performer e quem era o público, pois mesmo estando sentado na cadeira, me senti como um espectador daqueles que estavam participando, seja cortando meus cabelos, seja presenciando a ação. Dominador e dominado, o indivíduo se compadece de um ou de outro por diversos motivos. Tiro por lição que mesmo os dominadores detém o sentimento de "pena" de outros, pois para esses, dominadores nada mais querem que humilhar ao próximo para que sejam inferiores de alguma maneira.
Senti a aflição de alguns, o prazer de outros, o descaso de mais um tanto... Me senti livre de um peso, de um trabalho cumprido. Me propus a realizar uma performance e consegui ir até o fim... Passei por um misto de emoções que variaram da aflição do início do trabalho ao vislumbre dos sentimentos alheios. Visualizar as expressões faciais enquanto eles se achavam público, mas para mim eles eram os performer's. Me transportar do local que seria palco para um misto de platéia participativa. Me realizei deixando que todos se sentissem dominadores enquanto eu os analisava. E deixo a questão que fica para discussões: qual seria a motivação para um ato performático? Quando o performer sai do papel de ator e se torna público de sua ação? Em termos gerais, como ainda não temos uma definição de performance art, criaremos conceitos sobre as reações e as relações que o ato exerce sobre todos os participantes da ação.
vídeo da performance "Sansão": https://www.youtube.com/watch?v=-xOr1x_Y81g