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quarta-feira, 3 de junho de 2020

A última marola antes da “Primeira Onda”


A última marola antes da “Primeira Onda”
LIMA, Anderson
Muito mais que um xingamento ou uma definição de orientação sexual, o termo bicha determinava uma posição na escala social. Ricos ou pobres, brancos ou pretos, homens, mulheres ou bichas, homens efeminados ou passivo na relação sexual, aquele que é penetrado, tem “a posição social inferior da ‘mulher’...” (GREEN, 2000, PÁG. 279). Em Green (2000) é narrado que até antes dos anos de 1970 “os homens que mantinham relação sexual com outros homens se dividiam em duas categorias: o homem verdadeiro e a bicha”. O papel do “bofe”[1] surge como o homem ativo, que assume o papel de liderança na relação sexual e mesmo tendo relação com outro homem, ainda assim é considerado “homem verdadeiro” (GREEN, 2000). Até meados do séc XX não se tem registros de bares exclusivos ao público GAY, levando esses encontros às praças, becos, praias e banheiros públicos.
A própria história nos apresenta civilizações antigas que consideravam corriqueiras e normais os casos de relacionamento e até mesmo casamentos de pessoas do mesmo sexo. Atos esses que apenas começaram a ser criminalizados no início da era cristã, levando à pena de morte aqueles que os praticava (BOMFIM, 2011). Casos, obviamente, de extorsão política e financeira que tanto Estado quanto Igreja se aproveitaram para ampliar seus bens e recursos. As ordens religiosas e Estatais criaram Leis e regras como n“As Ordenações Manuelinas (1521)... que trataram do “crime de sodomia” no Livro Quinto, Título XII, e, igualmente, determinavam a morte pelo fogo, estabelecendo, contudo, que todos os bens do condenado fossem confiscados à Coroa portuguesa...” (BOMFIM, 2011).
Em detrimento as relações políticas instituem-se as relações de pré-conceitos. As necessidades religiosas da população em geral influenciaram diretamente em algumas segregações de relacionamento, principalmente as que se referem aos relacionamentos do mesmo sexo.. No Brasil, apenas em 1830, uma Lei Imperial aboliria o crime de sodomia, porém a aversão aos atos sexuais de pessoas do mesmo sexo prevê crimes de indecência. Códigos de noções de moral, decência pública e vadiagem eram usados na abordagem de pessoas que transgredissem as normas sexuais aprovadas socialmente (GREEN, 2000). Através do código penal de 1890, o preconceito se tornava indireto, promovendo a prisão daqueles que cometessem atos de atentado público ao pudor ou o travestimento (PEREIRA, 2015).
A procura pelas praias e locais desérticos e semidesertos se torna uma grande rotina GAY, além dos quartos de hotel, casas de amigos e festas particulares. O carnaval se torna então o momento do ano em que tudo é liberado, inclusive o ato sexual “pervertido”. Green (2000) se refere ao carnaval como os quatro dias do ano em que tudo é permitido, onde gays podiam expressar-se livremente. Durante esse período do ano se tornam abundantes os bailes dos travestis, onde homens vestidos de mulheres reinavam. “Nos anos 1950, o Baile das Bonecas, no Rio atraia um público internacional... que vinham assistir homens em plumas e paetês competirem à coroa de Deusas Glamorosas das celebrações carnavalescas” (GREEN, 2000). A busca pelo prazer associou-se de maneira costumeira à prostituição (PEREIRA, 2015) e “os espaços onde brilhavam as pantomímicas[2],... que no Rio de Janeiro ficavam no entorno do Largo do Rossio (atual Praça Tiradentes), mesmo antes de 1870, era identificado como espaço de circulação homoeróticas” (BRAGANÇA, 2019).
Esses espaços de socialização foram crescendo a e já entre os anos de 1920 e 1930 casos relacionados a condições não heteronormativas, o comportamento feminino e homossexual seriam considerados condições médicas. Os anos de 1960 trouxeram com o golpe militar uma ampliação dos fatores de perseguição, preconceito e punição a doença homossexual a partir da visão de uma comunidade cristã em defesa do capital... As forças policiais perseguiam travestis e fechavam pontos de prostituição e espaços de socialização em favor da moralidade e da higienização desses espaços. (PEREIRA, 2015). De acordo com Green (2000) o fator sexual foi menos importante nas perseguições políticas do que o posicionamento ideológico e político. Bares que mantiveram espaço para socialização gay iniciaram os shows de travestis, com apresentações de teatro.
A revolução de Stonewall em Nova York chegou na américa latina mas foi barrada nas fronteiras brasileiras pela repressão militar, impossibilitando a formação de um movimento gay nacional, porem criaram um florescimento de cenas culturais sexualmente expandidas nas grandes cidades (BRAGANÇA, 2019). Em meados dos anos de 1970, com o início do declínio do poder militar, grupos de militância se reorganizam. Estudantes, trabalhadores, mulheres e negros mobilizaram diversas ondas de oposição ao regime e auxiliando no processo de abertura gradual (GREEN, 2000). Os “Dzi Croquetes”, ocupam a cena carioca com apresentações andrógenas, usando barba e batom, implodindo os conceitos de papeis sexuais. Não se diziam engajados à causa gay, apenas defendiam a liberdade de expressão e mesmo sem uma apresentação teatral linear, tornaram-se um marco para a libertação gay seguinte (MORENO, 2001).
Empiricamente, insisto aqui em questionar os fatores religiosos frente as dificuldades de aceitação de diferentes identidades. “A censura moralista do governo militar limitava referências a homossexualidade na impressa... tornando a formação de um movimento político ‘gay’ no Brasil, impossível” (GREEN, 2000) e como já relacionado por Green (2000), a perseguição de gays por posicionamentos ideológicos superava à sua sexualidade. Enquanto gays atores apresentando espetáculos para gays, ou segundo Moreno (2001), “gays que entram em cartaz como mais uma peça gay que entra em cartaz. Peças de homossexuais, para homossexuais, com aquelas coisas que só homossexuais entendem”, termos que eram referências para o público, não afetassem o tradicionalismo heteronormativo cristão, não haeria problemas. Consideradas como “arena de lutas pelos direitos humanos” (MORENO, 2001), muito mais que uma boa peça de teatro. Relativo a isso, José Vicente de Paula (1945-2007), dramaturgo iniciante no final dos anos de 1960 teve seu espetáculo censurado, e apesar das citações moralistas de homossexualidade em cena, alguns trechos da peça nos levam a acreditar que muito mais fortes para a censura sexual foram os fatores de pragmatismo religioso:
“Num primeiro plano, como quer José Vicente, “Santidade” expõe a vida de michê com a devida mácula cristã. A prostituição masculina está aquém da retidão divina. Mas o autor transcende o tema. A peça também expia a noção de pecado segundo o peso da crença católica. Mais: avança para dentro mas de uma juventude vivida das relações humanas no que elas têm de superfície e essência.
Há 30 anos, quando o então presidente Costa e Silva censurou “Santidade”, em seu ataque de moralidade cívica, ele provavelmente se ateve a algumas frases de impacto que, não necessariamente, refletem o âmago da história. Por exemplo: “O Cristo morreu sufocado; a Igreja matou Cristo!” – é uma das sentenças espulmantes que saem da boca de Arthur, o personagem-vértice da peça. “Eu não acredito em santo sem esperma!”, continua. Mais: “O Deus da juventude está morto!”.” (SANTOS, Valmir. O Diário de Mogi. 1997)
O espetáculo “Santidade” se distancia deste trabalho quando narra um espetáculo feito para os palcos italianos tradicionais por atores indistintos de orientação ou identidade sexual, apesar de, para Tibaji (2017), que inicia seu texto dizendo que o teatro abriga, seja na vida real, seja entre seus profissionais, um refúgio para a diversidade sexual. Dicotomicamente se aproxima quando trata da cena homossexual, mesmo fora do “gueto gay” (PEREIRA, 2015), trazendo aos palcos uma realidade ficcional que tarja a vida de excluídos sociais devido as suas escolhas e declinações religiosas frente as suas orientações sexuais. O que mais reflete a presença marcante do preconceito religioso surge no fato de que em 1968 uma peça que narra
“...sobre um ex-seminarista, que, vivendo em São Paulo às custas do amante, recebe a visita do irmão que está para ordenar-se padre, colocando em xeque sua vocação religiosa. A montagem que teria direção de Fauzi Arap e produção da atriz Tônia Carrero, é censurada pelo marechal Costa e Silva em 1968, declarando em rede televisiva que aquele era "o exemplo de espetáculo que jamais seria encenado no país.” E logo no ano seguinte a estréia de José Vicente no teatro acontece em 1969, com a montagem de O Assalto pelo Teatro Ipanema, com direção de Fauzi Arap e atuação de Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque. A peça obtém sucesso imediato, projetando o nome de José Vicente na dramaturgia brasileira, ao lado de Leilah Assumpção, Isabel Câmara, Consuelo de Castro e Antônio Bivar. Esses autores, com linhagens diversificadas, devassam a intimidade de suas personagens, levando o conflito às últimas conseqüências. Temas como religião, homossexualidade e drogas são tratados com enfoque existencial e subjetivo, com diálogos que beiram o absurdo. O texto enfoca o problema da prostituição masculina em que o bancário Victor assedia moralmente o faxineiro Hugo após o expediente. José Vicente é agraciado como melhor autor de 1968, com os prêmios Molière, Golfinho de Ouro e Associação Paulista de Críticos Teatrais, APCT”. (Enciclopédia Itaú Cultural)
Outro autor que discorre sobre questões de identidade é Coelho Neto, que tem seu texto “O Patinho Torto”, que faz referências a travestis, censurado nos anos 1920, mas liberado em 1964 (TIBAJI, 2017) . Esse texto narra a história de uma moça de família que ao completar 18 anos descobre que é homem. Criado desde seu nascimento como menina e usando roupas de menina, ao se consultar com um médico lhe é revelado que ao nascer houve um erro em seu registro. Baseada em uma notícia de jornal, não faz referências religiosas a não ser que toda sua família é extremamente pudica e que a situação perturba a todos. A comicidade da peça não lhe trouxe prêmios nem elogios públicos de crítica. Nelson Rodrigues em sua literatura aborda o sexo em suas obras e vez ou outra adentra no universo LGBT, como nos textos “Album de Familia”, “Toda Nudez Será Castigada” e “O Beijo no Asfalto”, assim como Oswald de Andrade também cita esse universo em “O Rei da Vela”.
E desse tempo, assim como as tragédias gregas, muito há de se achar em gavetas escondidas, estantes empoeiradas de bibliotecas ou mesmo em cinzas não mais legíveis. O que realça a necessidade de se apresentar ao mundo as diversas identidades vistas por autores de identidades diversas. Tem-se aqui a necessidade que a arte e o conhecimento nos impõem. Deixar fluir o pensamento e o registro, seja visual, seja comportamental é uma necessidade que a criatividade regala ao artista. O teatro em seu aspecto mais profundo de criar reflexões, de ensinar, de ato político de resistência e de resignação em vários momentos assumiu seu papel nas mãos de autores e nos corpos de atores. As lutas pelas igualdades que se iniciam no Brasil com a diluição da ditadura dão créditos ao passado, vazão e visibilidade ao presente e esperanças ao futuro. Aqui começa a “primeira onda” (FACCHINI, 2003) de igualdades entre as identidades diversas e ao não binarismo sexual.


BIBLIOGRAFIA
FACCHINI, Regina. Movimento Homossexual no Brasil: Recompondo um histórico. São Paulo: Universidade Estadual de Campinas, 2003.
BOMFIM, Silvano Andrade do. “homossexualidade, direito e religião: da pena de morte à união estável. A criminalização da homofobia e seus reflexos na liberdade religiosa”.  Revista Brasileira de Direito Constitucional – RBDC n. 18 – jul./dez. 2011 retirado de http://www.esdc.com.br/RBDC/RBDC-18/RBDC-18-071-Artigo_Silvano_Andrade_do_Bomfim_(Homossexualidade_Direito_e_Religiao_da_Pena_de_Morte_a_Uniao_Estavel).pdf em 30 de maio de 2020.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. “BIOGRAFIA: José Vicente de Paula”. Retirado de http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359451/jose-vicente em 31 de maio de 2020
SANTOS, Valmir. TELEJORNAL Diário de Mogi. Retirado de https://teatrojornal.com.br/1997/11/santidade-transcende-culpa-crista/ em 31 de maio de 2020
GREEN, James N. “Mais amos e mais tesão: a construção de um movimento brasileiro de gays, lésbicas e travestis”. Cadernos Pagu. 2000
MORENO, Newton. “A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro”. III Congresso de Cultura e Homoerotismo: UFF. 2001
TIBAJI, Alberto. “Apontamentos e reflexões sobre as relações entre teatro no Brasil e diversidade cultural”. O eixo e a roda, Belo Horizonte, v.26: Universidade Federal de São João Del Rei, MG. 2017
FERREIRA, Rhanielly. “Fora do gueto: o processo de formação da 1ª onda do movimento gay no Brasil”. Emblemas – Revista da Unidade Acadêmica Especial de História e Ciências Sociais – V. 12: UFG\CAC. 2015
BRAGANÇA, Lucas. “Fragmentos da babadeira história drag brasileira”. Revista Eletrônica de Comum. Inf. Inov. Saúde: UFF. Niterói – RJ. 2019
BORTOLOZZI, Remom Matheus. “A arte transformista brasileira: rotas para uma genealogia decolonial”. Quaderms de Psicologia – V. 17, nº 3, pág 123 – 134: UERJ. RJ. 2015



[1] Homem ativo (que penetra) que tem relação sexual com homem passivo (que é penetrado).
[2] Tipo de performance de canto e de realização de pequenos papeis cômicos que envolviam a personificação feminina (BRAGANÇA, 2019)



quarta-feira, 27 de maio de 2020

Sociedade NÃO TÃO Secreta das bYXXXas



Ao longo da década de 1980 na cidade de Vitória, grande parte dos grupos de teatro em atividade no período tinha em sua composição ativistas gays e simpatizantes. Em sua maioria conhecidos, de alguma forma, na região e muitos até mesmo no estado. As manifestações artísticas, em especial o teatro, eram amplamente divulgadas nos jornais de grande circulação, principalmente porque ocupantes dos grupos teatrais faziam parte do quadro de jornalistas. Os artistas do período tinham ocupações nos ramos da comunicação, o que facilitava o acesso aos veículos midiáticos. Wilson Nunes, Milson Henriques, Alvarito Mendes Filho, Milton Neves eram todos funcionários das emissoras de rádio e televisão da capital e responsáveis por grupos de teatro e espetáculos em cartaz. No andar de cima da Boate Eros se localizava o ponto de encontro desses e outros grupos de teatro.
Situada em uma das ruas do tão visitado Parque Moscoso, a boate tornou-se local de encontros amorosos e de outras formas de sociabilidade da comunidade homossexual desde a sua fundação no final dos anos 1980 até seu fechamento em meados da primeira metade dos anos 2000. Para entender a importância desse espaço, é necessário compreender que o contexto político brasileiro a partir de meados dos anos 1980 – marcado pelo processo de abertura democrática - é contraditório. Por um lado, há pessoas tentando se livrar de todos os maus agouros da ditadura, denunciando ou sofrendo suas consequências. Por outro lado, há outras pessoas recordando saudosas da disciplina que mantinha a “ordem” e os “bons costumes”, colocando cada tipo de cidadão em seu lugar social e mantendo uma forçada disciplina. Dentro da Boate Eros, porém, os preconceitos eram substituídos por uma maior liberdade. Apesar de toda repressão política e social e da grande incidência de preconceito, apesar das batidas policiais recorrentes na boate, o local ainda acolhia a diversidade artística como em nenhum outro lugar.
O movimento gay da época ainda estava em fase inicial de organização na capital capixaba. Em sua maioria, eram grupos que satirizavam as questões políticas, mas não tinham organização social como base além do grupo de teatro e das performances transformistas individuais. Embora a diversão pessoal fosse um importante motivador para esses grupos de teatro, seus artistas também estavam intuídos do desejo de apresentar para o público uma realidade vivida por muitos deles dentro de suas vidas. Esses grupos aparentemente não tinham como intenção inicial transformar concepções sociais mais amplas sobre gênero e sexualidade, apenas querendo compartilhar que as orientações sexuais diversas estão em qualquer lugar. Apesar dessa possível ausência de intencionalidade, uma transformação política que está “entre” o mundo real e o ficcional ocorre naquele período com o fortalecimento das identidades gay.  
Essa pesquisa trata do tema da formação da identidade gay a partir de um recorte específico, feito na capital do estado do Espírito Santo (ES), entre os frequentadores da Boate Eros, local onde aconteciam, além das noitadas de discoteca, shows de transformistas e apresentação de espetáculos de teatro, em sua essência, dentro da temática gay. Nesse local, o ativismo era forte, frequente e recorrente, o que nos leva a crer que a “performance artística”, que segundo Bonfitto (2013) é uma forma potente de engajamento social e político, tem sua parcela de influência na formação da identidade gay de seus frequentadores. Dessa maneira, sugerimos que a construção de identidades gay e o enfrentamento a discriminação por orientação sexual no âmbito familiar e na comunidade eram em alguma medida embasados nas relações sociais que se fortaleciam a partir da participação desses indivíduos nas atividades da boate, seja como ativistas artistas, seja como ativistas públicos.
Exemplos de performances artísticas fortemente engajadas e relacionadas às identidades gay, podem ser observados em espetáculos teatrais que englobavam tais temas. Seus textos eram fictícios, contados em forma de comédia, usadas para divertir um público que vivia situações aproximadas daquelas contadas no texto. Muitas situações refletiam vontades, mas não necessariamente uma realidade. Dois exemplos distintos foram espetáculos incentivados por Wilson Nunes, artista ativista que tinha muita influência entre jovens iniciantes no teatro. Dentre outros nomes, Wilson Nunes foi um grande propagador das artes performáticas e teatrais dentro da Boate Eros e no mercado artístico da região. Sua personagem Najla Paquetá era a apresentadora dos eventos que aconteciam na boate além de dublar e cantar ao vivo músicas das musas Clara Nunes, Elis Regina e Alcione. Em sua carreira artística participou de inúmeras montagens teatrais, sendo a primeira um espetáculo que ficou conhecido pelo mundo e provavelmente deu-lhe o impulso para a consagração na classe artística teatral. A montagem do espetáculo “Os gatos do beco” de autoria de Alvarito Mendes Filho, não tinha relações com a comunidade gay ou o ambiente da boate além do fato de que os ensaios e encontros artísticos acontecerem na mesma em horários em que não funcionava. Outros textos do autor, no entanto, estavam fortemente relacionados à identidade gay.
Um texto de autoria do próprio Wilson, “Minha Sogra 44”, ilustrava bem os relacionamentos hétero e homossexuais dentro de um mesmo ambiente, que como faziam parte de uma mesma família, se aceitavam de forma natural e normal. Mas ao decorrer da história entra em cena um personagem heteronormativo que não estava “acostumado” com as situações daquela família “diferente” dos padrões da sociedade daquela época.
Outro espetáculo, que fez tanto sucesso a ponto de se manter em cartaz durante muitos anos tendo várias sequências, foi “A Perereca da Marly”, escrita por Milson Henriques, que narra a história da personagem de tirinha de jornal criada pelo próprio Milson, cartunista de jornal de grande circulação no estado. Os personagens principais do espetáculo eram mulheres, mas os atores eram homens, que ficaram consagrados e conhecidos pelas personagens. Marly, representada por José Luiz Gobbi, chegou a ser ala de escola de samba no estado. Em decorrência do espetáculo, Gobbi ficou mais conhecido como Marly do que como qualquer outro personagem que ele tenha feito (se fez, ficou esquecido).
Cabe mencionar ainda, um terceiro exemplo, o espetáculo “Por Favor Matem Minha Empregada” escrito pelo servidor federal Edilson Pedrini, que tinha como estrela o ator Wilson Nunes, que se travestia da personagem Melanie Marques. A personagem era conhecida na Boate Eros como aquela que assumia o controle das apresentações da casa construindo uma performance que durava a noite inteira chamando os shows, apresentando números performáticos (muitas vezes cantado ao vivo) que traziam para a casa um grande número de expectadores que já haviam se tornado seus fãs.
Além dos espetáculos teatrais, a Boate Eros contava, ainda, com espetáculos de transformistas. Os shows de dublagem agitavam o público de várias maneiras. Alguns dos transformistas traziam em seu repertório músicas do pop internacional da moda. Divertiam a elite burguesa com a interpretação das músicas que faziam parte de seu repertório cotidiano. Outros reviviam grandes clássicos da música romântica internacional. Alguns, ainda, levavam para o palco os clássicos da MPB e do samba, músicas que fizeram uma geração protestar, lutar por direitos e criar movimentos que ficaram marcados por essas canções.
Suas performances criticavam ou enalteciam pensamentos sociopolíticos, desejos e anseios daquele e de outros grupos da sociedade brasileira. Um trabalho que ia muito além de uma dublagem musical. Uma performance que sugeria, através de seu comportamento corporal, de seu figurino, de sua maquiagem, dentre outros elementos, um ato de revolta, de insubordinação e de transformação. Alguns performers transformistas da boate foram consagrados tanto na comunidade gay quanto na sociedade em geral, seja nas profissões até então cabíveis apenas para homossexuais – cabeleireiros, maquiadores, atores – seja no empreendedorismo, no ativismo em movimentos sociais ou na política institucional. Nomes como Tarsilla Open, Bianca Castelli, Denner, Lauren Dollar, Mery Ofidê Relpi, Dayse Lilica, Miss Linda, Pâmela Castilho e Chica Chiclete foram marcantes na boate e são personalidades muito conhecidas hoje no cenário capixaba.
Ao subir no palco, essas artistas vestem uma “máscara”[1] que pressupõe estudos e entendimentos daquele personagem que ele está representando. Nos shows da Boate Eros, cada ator ou performer se entrega de maneira única. Os transformistas em suas performances são cada um, a sua maneira, personagens diferentes. As relações entre suas personagens e suas identidades sociais fora do âmbito da Boate Eros eram diversas.
Exemplos são Bianca Castelli, transformista, mulher trans, maquiadora. Suas experiências na sociedade são colocadas no palco a partir de seus talentos e suas performances externas. Tudo influencia na sua composição e na diferenciação de seu personagem aos dos outros. Bianca se apresenta como Bianca e é conhecida na sociedade como Bianca. Diferente, mas não distante, temos as performances de Chica Chiclete. A personagem é vivida pelo transformista conhecido fora do âmbito da boate como Francisco Spalla. O empresário chegou a ocupar cadeira no legislativo. Sua eleição se deu a partir da fama e do sucesso que Chica tinha na comunidade. Mas quem assumiu o cargo foi Francisco. Já Ângela Jackson era atriz muito mais que transformista. Suas performances não eram só os shows de dublagem. Ela cantava, contava com um coro de dançarinos e criava cenas teatrais no meio do show. Ângela é animadora de festas e só nas festas tem esse nome. Em sua vida social, fora do mundo das artes, Rodrigo é homem, gay e trabalha em repartição pública, sem maquiagem, sem saltos, sem peruca.
Analisando esse cenário, essa pesquisa está teoricamente fundamentada em uma revisão da literatura sobre a história do movimento LGBT no Brasil e sobre o conceito de “performance teatral” de Matteo Bonfitto, este último que trata do campo artístico. Do ponto de vista metodológico, essa investigação buscará descrever as performances teatrais em espetáculos teatrais e de transformistas ocorridos nessa boate no período de sua existência (final dos anos 1980 e início dos anos 2000) buscando compreender como essas performances tensionaram identidades de gênero e contribuíram para a formação da identidade gay de seus artistas e frequentadores. Assim, o problema de pesquisa que esse projeto propõe pode ser resumido da seguinte forma: quais são as relações entre as performances teatrais realizadas em espetáculos teatrais e shows de transformistas na Boate Eros e a formação da identidade gay na Grande Vitória entre o final da década de 1980 e o início dos anos 2000?
Essa pesquisa se mostra viável, já que o acesso a entrevistas é fácil devido à proximidade do pesquisador com essas pessoas. Fui frequentador assíduo da boate, principalmente nos anos de 1990. Como possuía um ambiente gay próximo à boate, a frequência era fácil. Participava da sociedade sem lucros de uma sauna que era um ponto de “esquenta” para alguns frequentadores da boate. Fazia parte de um grupo de teatro, mas que não tinha apresentações na boate, porém sempre estava presente enquanto expectador. Possuía uma ligação muito forte com os artistas que faziam parte, tanto do grupo de teatro, como das transformistas que executavam os shows da noite. Durante um tempo participei dos concursos de “Garoto Eros” e auxiliei na produção de alguns dos shows de transformistas.
Ademais, existe um acervo particular audiovisual de muitas noites da Boate Eros que registraram desde a preparação da noite, os shows, alguns espetáculos de teatro até a despedida da noite, com luzes acendendo, sol nascendo e muitos depoimentos de gays e travestis que participaram enquanto público, atores ou transformistas que fizeram os shows da casa. Além do trabalho acadêmico, essa pesquisa tem como objetivo, ainda, fundamentar a construção de um espetáculo teatral que irá ilustrar esse período histórico.


[1] Máscara como conceito que Eugenio Barba descreve como quando o ator define uma estética ou escola teatral a seguir e se utiliza de suas ações cotidianas para preencher lacunas de expressões, sentimentos e sensações dadas ao personagem interpretado (BARBA. 1995).

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Clipping: INSANOS "O PESADELO DO TERCEIRO MILÊNIO"



























https://www.facebook.com/sousalimaanderson/videos/1317515654932439/

 
https://www.instagram.com/andersonlimaator/
INSANOS
Um Devir Psicótico que transforma as ilusões e as realidades...
O texto de Anderson Lima é um ensaio sobre a esquizofrenia com nuances de um terror vampiresco. Um ser "nonsense" que em suas alucinações acredita que Deus o escolheu para ficar em seu lugar... Psicopata assassino e paranoico passeia por seus delírios regados de sangue e morte enquanto narra sua infância problemática e escreve um novo livro de Leis espirituais que ele chama de nova Bíblia baseada em suas teorias de certo e errado. As sombras que o perseguem e as vozes que ecoam em sua mente o direcionam em sua jornada de sublimação divina. O autor se apropria de trechos Santos e profanos em alguns momentos o que tornam a experiência da atuação mais tensa e marcante. A crença do personagem de que tudo que ele faz está autorizado por um Deus que ele "ilusiona" como material em feitiços e orações lunáticas criadas para a invocação de um "big bang" em seu interior, o faz aterrorizar enquanto clama pela atenção do público.

INSANOS – Um mergulho visceral na mente fragmentada

resenha crítica por Anderson Lima

Por mais de uma década, INSANOS tem sido um dos espetáculos mais marcantes do teatro capixaba. O monólogo, escrito e interpretado por Anderson Lima, não apenas expõe os dilemas de uma mente atormentada pela esquizofrenia, mas também convida o público a uma jornada sensorial e emocional profunda.

A peça se destaca pela intensidade da atuação de Lima, que entrega uma performance visceral, alternando momentos de lucidez e delírio com uma precisão impressionante. O texto, fruto de extensa pesquisa e vivência, carrega um peso dramático que se reflete na recepção do público—muitos saem da apresentação visivelmente emocionados.

A direção e a ambientação contribuem para a imersão, utilizando efeitos sonoros e iluminação para amplificar a sensação de inquietação e desorientação que permeia a mente do protagonista. A escolha de trechos santos e profanos no discurso do personagem adiciona uma camada de complexidade, tornando a experiência ainda mais densa e reflexiva.

O espetáculo não apenas entretém, mas provoca debates sobre saúde mental, sociedade e identidade. A esquizofrenia, muitas vezes estigmatizada, ganha um olhar humano e sensível, permitindo ao público enxergar além dos sintomas e compreender a profundidade da condição.

Com apresentações em diversos festivais e teatros, INSANOS se consolida como uma obra essencial para quem busca um teatro que desafia, emociona e transforma.

Se quiser que eu refine algum aspecto da resenha ou acrescente detalhes específicos, me avise! 🎭🔥






Serviço:
texto, atuação e direção de Anderson Lima
data: 11 de maio de 2016
horário: 20 horas
Local: Teatro Universitário da UFES
Produção: "JC Produções"
contato: José Celso Cavaliéri - 999 087 044

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sociedade Secreta das Bixxxas (teatro)


 UMA PRÉVIA... ESTRÉIA EM FEVEREIRO DE 2016



Um loft com 4 espaços distintos, uma cozinha prática e um armário. Um cabideiro cheio de adereços de drag, um balcão com perucas
Quatro profissionais com atividades diferentes durante o dia, mas a noite todos são Drag Queen, 3 homens e 1 mulher que ocupam os cargos de alto escalão da sociedade secreta, e o tesoureiro que está sempre em off de dentro do armário. Neste dia em especial eles estão preparando a iniciação do público para a sociedade secreta, procurando documentos em especial um deixado com os passos da coreografia de iniciação que foi perdido há algum tempo e agora está em poder do alto escalão, mas eles não conseguem achar na bagunça do loft.
THIAGO
(entrando por uma porta imaginária de um lado do palco) Nem acredito que cheguei em casa... Hoje o dia foi nada menos que estressante. (larga a bolsa no chão)... Três artigos para escrever e cada um de um tema diferente... (tira os sapatos e os larga pelo caminho)...
ISMAEL
(entrando por uma porta imaginária de outro lado do palco) Mais um dia cansativo. Aqueles “anjinhos” hoje devem ter comido pimenta. (larga a bolsa no chão)... E a professora nova? Acha que é a dona da escola... (tira os sapatos e os larga pelo caminho)...
LUANA
(entrando por uma porta imaginária de outro lado do palco puxando um carrinho de churrasco) Nem acredito que tive que virar a noite. Tinha um casal namorando tomando uma latinha de cerveja que não ia embora (larga a bolsa no chão)... Pensei que iria direto de lá para o hospital, e olha que meu plantão é só daqui a três dias... (tira os sapatos e os larga pelo caminho)...
THIAGO E ISMAEL
AFF!!! (os três param em frente ao sofá e sentam-se juntos). (Anderson dá um grito e todos dão um pulo. Ele está deitado no sofá)
ANDERSON
(montado) Vocês engordaram (comoção geral). Gente, o show de ontem foi uma merda, tinham dez pessoas na plateia... (tira a peruca) Mas me cansou tanto que cheguei e nem consegui tirar minha maquiagem... (tira os sapatos e os joga num canto)...
SENTAM I, T, A... LUANA VAI PARA O CARRINHO...
THIAGO
Então? Já pensou como você vai falar com ela?
ISMAEL
É! Porque tá tenso essa convivência...
ANDERSON
Não sei qual o problema de vocês... Pensa bem... Você é jornalista e você é professor... Com o salário que vocês ganham não dá prá pagar um terço das contas da casa, mas de quatro vocês conseguem.
ISMAEL
Mas ela é mulher... (Luana coça o saco)
THIAGO
Ele quis dizer que ela tem pepeca!!!
ANDERSON
Tem o que?
ISMAEL
Pepeca... Você conhece... Aquele bichinho do qual você nasceu...
THIAGO
E viu algumas ao longo da sua vida... E se contar quantidade por quilometragem vai dar alguns dígitos...
ANDERSON
Ei!!! Pode parar...
ISMAEL
Qual é Anderson... Todo mundo sabe que você é bi!
ANDERSON
Bichona... Pelo que eu saiba a única bi aqui é a Luana... (Luana puxa a cueca do rego)...
THIAGO
Mas tá... Você tá enrolando a gente... Vou chamar ela aqui e você vai falar.
ANDERSON
Peraí gansa... Tadinha, prá onde a bichinha vai? Ela não tem onde morar. E com esse negócio de churrasquinho e trabalho público, ela ganha mais que nós três juntos.
ISMAEL
A gente se vira... Outro dia tava trazendo o bofe prá cá e quando ele viu a mapoa quase que me trocou...
THIAGO
Se ele visse um dragão ele te trocava!!!
ISMAEL
Anderson, ninguém dá nada prá ninguém... Para de querer ser boazinha...
ANDERSON
Não sou boazinha, sou gostosa!
THIAGO
Luana! O Anderson quer falar com você!
LUANA
(trazendo um churrasquinho para cada um) Oi! Aqui... Eu separei prá vocês... do jeitinho que vocês gostam... (os três se olham) Ai gente, não sei o que seria de mim sem vocês... Eu amo essa casa, amo meu cantinho, amo morar com vocês! Ah! E hoje eu vendi tanto que já dá prá pagar a minha parte da conta do mês... E ainda sobrou um pouquinho, daí comprei umas cervejinhas prá gente tomar mais tarde...
ANDERSON
Bom... Sabe o que é Luana, eu pensei muito e queria te falar que...
THIAGO
(Pegando o dinheiro das mãos de Luana) Você foi a melhor coisa que aconteceu na nossa vida!
ISMAEL
É! (pegando o dinheiro das mãos do Thiago) A gente não imagina como seria nossa vida sem você...
ANDERSON
(pegando o dinheiro das mãos de Ismael) Gente, vocês são videntes... Era exatamente isso que eu estava pensando em falar!
TODOS LEVANTAM E VAI CADA UM PARA SEU CANTO...
ISMAEL
Alguém viu minhas pautas?
THIAGO
Não to conseguindo achar nem meu celular...
ANDERSON
Mas também, olha a bagunça que está essa casa... E olha só... tá todo mundo lembrando o que temos hoje né?
OS TRÊS
É hoje? (música de suspense, luz em penumbra)
LUANA
Ai meu Deus, Seu Anderson... Esqueci de separar o material...
THIAGO
Sabia... Uma hora ia aparecer um defeito...
LUANA
Agora que eu já paguei minha parte da conta tudo em mim é defeito né?
ISMAEL
Uhm!! Mostrando as garras!
ANDERSON
Thiago, preparou os documentos? Ismael, achou o pergaminho da coreografia?
OS TRÊS
O pergaminho!!! (música de suspense, luz em penumbra)
ANDERSON
Vamos parando com essa porra... Acende a luz e desliga o som. Todo mundo sabe que sem o pergaminho secreto de “Luiz Delgado” a iniciação fica incompleta...
THIAGO
Nãããããooo!!! A gente sabe que uma iniciação incompleta pode acarretar grandes prejuízos prá sociedade...
CONTADOR
Gente... Vocês são muito desorganizados... A casa tá uma bagunça... Não tem como achar nada por aqui!
THIAGO
Olha o que deu a última...
ANDERSON
João, você podia sair do armário e ajudar a gente a procurar...
ISMAEL
Ihhh! Nem adianta... Fala em sair do armário ele fica mudo de novo...
LUANA
Mas numa coisa ele tem razão. Com esta bagunça que está a casa, não tem como achar nada mesmo...
ANDERSON
Não pode ser... Luiz Delgado guardou o pergaminho secreto de Pedroca e passou de geração em geração, e logo nós fomos perder...
ISMAEL
Pedroca? Foi Pedro, o evangelista que criou a coreografia?
THIAGO
Claro que não bixxxa... Foi Pedro Álvarez Cabral, quando ele veio para o Brasil, veio com a única incumbência de criar a sociedade aqui...
ANDERSON
Sim, tanto que ele veio na Pinta...
ISMAEL
Você quer dizer dando pinta?
LUANA
Claro que não bixxxa burra! Na caravela Pinta
THIAGO
Ele veio na Pinta porque não podia vir num pinto... kkk
LUANA
Mas aposto que veio trepado no caralho.
OS TRÊS
Olha o nível
LUANA
Oh gente! Caralho, a cestinha que tem no topo do mastro principal de uma caravela... O maior mastro, bem no meio...
ISMAEL
Gente! Vou começar a chamar meu boy de caravela...