quarta-feira, 27 de maio de 2020

O Teatro como Forma de Ação Política e de Construção de Identidades


O Teatro como Forma de Ação Política e de Construção de Identidades

Em todo o mundo, o teatro sempre esteve presente com diversos fins, tendo impacto nas relações políticas de dominação e poder, bem como em processos de construção de identidades. No Espírito Santo não foi diferente. O advento da colonização teve como uma de suas marcas artísticas a presença dos padres jesuítas, em especial José de Anchieta, como grande provedor das artes cênicas como meio de catequizar os nativos. Não era apenas uma mera diversão, pois os espetáculos - que segundo historiadores eram marcados pela “baixa qualidade e o amadorismo dos atores” (FARIA, 1999, p. 343) -  tinham a função de instruir os povos nativos sobre os regimes religiosos, sociais e políticos dos colonizadores.

Com a ascensão de uma burguesia local e a falta de práticas de diversão, o teatro, já em meados do século XIX, ganha nova roupagem. A vinda da família imperial e as obras nacionalistas trouxeram com eles o romantismo[1] europeu. O teatro romântico veio associado a técnicas de palco e padrões sociológicos e organizacionais[2], causando grande impacto na hermenêutica[3]. Enquanto as técnicas aristotélicas[4] previam padrões de imitação, o romantismo dava certa liberdade de expressão aos atores, uma linguagem mais natural e coloquial a um estilo teatral que acabava de nascer. O drama permitia a mistura do belo e do feio, da dor e do riso, dos problemas da aristocracia e do povo, de elementos da tragédia e da comédia (GAMA, 1987, p.17). Os grupos de teatro começaram a se formar no estado e as performances dos atores desses grupos incitou o público a pensamentos nacionalistas, patrióticos e revolucionários, características marcantes desse período (BETHOLD, 2010, p.429).

Não obstante a formação dos primeiros grupos de teatro não religiosos no estado, a partir de meados do século XX a cena teatral capixaba passa a enfrentar uma política de restrições com a incursão do golpe militar e do período de ditadura que passou a reger a nação. Não diferente do restante do país, também no Espírito Santo sofre-se com as censuras impostas. Artistas que marcaram o povo capixaba de alguma forma, foram impelidos a seguir regras nacionais, mas não se dobraram totalmente aos atos de censura. A escola de Balé contemporâneo do Praia tênis Club, orientada por Denise Marques, por exemplo, produzia espetáculos de dança amadores onde a sensualidade era tema recorrente. Participei do grupo nos anos finais da década de 1980. Não aconteceu uma produção para temporada, apenas apresentávamos para familiares e outros alunos. Já o Grupo Teatral “Garotos da Ilha”, dirigidos por Milson Henriques, teve espetáculos censurados e até mesmo interferidos em sua execução por censores que assistiam no meio do público. Outro exemplo é o espetáculo “De Setembro a Setembrino”, cuja apresentação no Theatro Carlos Gomes foi impedida com intervenção policial no meio de sua apresentação (GAZETA, 2014). Ricardo Barnabé, fundador do Grupo Mutirão de Teatro, em suas montagens de textos de Glauber Rocha, chegou a ser convidado a desistir da montagem. Durante a apresentação de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o diretor interrompeu os ensaios e se mudou para o interior da Bahia, de onde apenas em 2003 concluiu sua montagem e em 2004 fez temporada no Centro Cultural Edith Bulhões, na cidade de Vitória e no Teatro Municipal de Vila Velha.  
Recém-chegado a nossas terras, o artista carioca Milson Henriques[5] inicia a proposta de formação de grupos de teatro que, apesar de poucos registros, ainda mantém sua marca na memória de muitos cidadãos de meia idade hoje. Ricardo Barnabé[6], Amylton de Almeida[7], Wilson Nunes[8], nomes que fizeram história no teatro, no jornalismo e na TV que tiveram grande influência na vida de muitos capixabas.
Muitas obras foram criadas durante o período do Regime Militar, muitas apresentadas e muitas outras censuradas. O teatro Carlos Gomes foi berço de espetáculos teatrais e peças musicais fantásticas, românticas, realistas e infantis. Nasce na capital uma coordenação de cultura e o estado floresce em arte, mesmo que regulada pelos parâmetros ditatoriais, e frutifica diversos nomes de artistas e grupos que se mantiveram e ainda se mantém vivos e atuantes no cenário cultural e artístico.
Nesse contexto, diversas boates e bares ficaram famosos entre aqueles que buscavam diversão, principalmente entre a elite burguesa, tendo em sua maioria caráter heteronormativo. Shows de artistas nacionais e internacionais invadiram o cenário do turismo e da diversão na capital capixaba. Com o fim do período de repressão e o surgimento de uma gestão política democrática liberta de amarras militares, surge na parte nobre da capital aquela que será objeto dessa pesquisa, a Boate Eros, que se consagraria como ponto de encontro gay do estado.

Essa breve revisão da história do teatro capixaba indica que as performances teatrais podem estar atreladas a projetos políticos e a processos de formação de identidades. É necessário, portanto, refletir teoricamente e conceitualmente sobre a performance teatral.

Desde a presença da representação nos ritos de clamor ao deus sol, nos ritos de purificação e nos sacrifícios humanos da pré-história, na interpretação das tragédias, comédias e sátiras aproximando os deuses gregos das decisões dos homens, a purgação da Idade Média, as tragicomédias renascentistas, os conflitos iluministas, todos esses períodos dependiam inclusivamente das performances do ator que encenava cada papel para que as intenções das cenas tivessem a interpretação desejada por seus autores para o público. Sua apresentação inclinava o espetáculo ao entendimento que ele intencionava. Em muitos momentos, o próprio texto já trazia uma mensagem implícita nas palavras, já em outros cabia ao ator transmiti-la através de sua performance.

Bonfitto proclama esse momento que se passa entre a pessoa do ator e seu ato de performance como aquele em que as mudanças, entre o ator no seu cotidiano e o ator na iminência da performance, podem surgir (FABIÃO, 2013). Em sua obra, o autor analisa diferentes atores e suas performances, tanto como expectador quanto como participante. Ele diferencia o “ator” do “performer” não como pessoas diferentes, mas como atitudes diferentes em cada um de nós. O ator segue regras de semiótica e estética que definem a arte teatral (STANISLAVISKI, 1999; 2001) enquanto o performer possui uma liberdade estética de improviso no momento de sua atuação. O ator, no ato de sua preparação, pratica exercícios concretizados pela estética do fazer teatral que envolvem o corpo atento e a escuta. A escuta proporciona um exercício de percepção do texto relativo ao momento de seu estudo, ao local, ao horário e ao estado de espírito do ator (BONFITTO, 2013, p. 58). Nessa escuta, cabe um processo de interpretação e representação ao qual Bonfitto narra como performance. A partir dessa literatura, conclui-se que se o teatro é uma forma de politizar, o ator é o agente e a performance é a forma da ação.

Bonfitto (2013) revela em seu ensaio “Entre o Ator e o Performer” que as atividades artísticas performáticas sugerem muito mais que atividades de diversão: são formas de transformação do mundo. Completa ainda sugerindo que o teatro tem uma função de conscientização política e social para seus artistas e para o público. Certas performances extrapolam os limites da semiótica e da hermenêutica, constituindo um ato político, contestando noções pré-estabelecidas pela sociedade e atitudes de desprezo ou preconceito a partir da realização de seu trabalho (BONFITTO, 2013).

Em seu livro “Entre o Ator e o Performer”, Bonfitto (2013) passa por experimentos únicos para ele, tratando da relação entre as peças de teatro e as performances, que compreendo como que em peças de teatro o ator pode fazer suas performances, porém uma performance não é uma peça teatral, sendo nos dois casos espetáculos cênicos, e narrando seus registros de várias performances e artistas emblemáticos. Em certos momentos o autor participa enquanto performer convidado para os trabalhos ou concluindo pesquisas. A partir desse trabalho de campo onde Bonfitto se coloca no lugar do expectador em alguns momentos e em outros ele é o próprio ator-performer, o autor traz diversas perspectivas e proposições sobre essa arte. Ao longo desse livro, o autor propõe novos conceitos e discussões sobre antigos temas, trazendo diversas perspectivas e proposições sobre essa arte. Em todo o debate proposto no livro, percebe-se as implicações que o trabalho de atuação e de performances realizadas dentro de suas apresentações reflete no público e vice-versa. Além disso, suas análises demonstram que os conflitos existentes nos textos não eram meramente literários, mas possuíam uma carga de análises sociológicas, antropológicas e políticas (BONFITTO, 2013, p.65), pois traziam reflexões sobre problemas sociais e políticos do período em que aconteciam, marcando a presença do corpo na ação do espetáculo. O corpo do ator acaba tendo uma importância maior que o próprio texto.

Outro conceito teatral fundamental para essa pesquisa é o das “máscaras”, conceito que Eugenio Barba e Nicola Saravense (1995) descrevem como quando o ator define uma estética ou escola teatral a seguir e se utiliza de suas ações cotidianas para preencher lacunas de expressões, sentimentos e sensações dadas ao personagem interpretado. Durante os shows artísticos e as performances, cada ator-performer constrói seu personagem a partir de experimentos do seu dia-a-dia. Sua performatividade diária faz parte da pesquisa e do exercício praticado pelo artista na montagem do seu trabalho. Conforme indicado na introdução desse trabalho, é possível observar que as relações entre as identidades sociais dos atores e as máscaras por eles utilizadas pode variar significativamente em cada caso.
No processo de construção de máscaras, a escolha da roupa, da música, da maquiagem diferencia artistas pelos padrões escolhidos. O corpo dos artistas se torna um instrumento de transformação social. A partir de seu corpo, independente de sexo ou de sua identidade, o artista questiona algo ou incita a algo. Os trabalhos apresentados por esses corpos artísticos são marcados por desejos e ansiedades, tanto do próprio artista como do público. A montagem da cena através da escolha de uma música ou de outra politicamente questionadora é parte da construção de um ou de outro personagem (STANISLAVISKI, 1999; 2001). Assim, por meio da formação dessas máscaras, entendo que cada transformista e cada ator inspira e auxilia na construção do ser, tanto dele mesmo como daquele que o assiste. O ato teatral é muito mais que uma suposição artística, ele se torna um potencializador político e social, transformador de ideais, pensamentos, comportamentos e identidades.


[1] A escola romântica ou romantismo é o período artístico que teve início no século XIX em contraposição ao neoclassicismo. (BERTHOLD, 2010)
[2] São os padrões literários de organização do texto teatral que seguiam normas de referências de personagens e de conflitos da trama na história contada.
[3] Hermenêutica é a ciência da interpretação de texto ou arte de interpretar
[4] As técnicas aristotélicas vêm de Aristóteles, filósofo grego que definiu regras para o fazer teatral.
[5] Gazeta online: Milson, mestre sensível e mordaz, 2016.
[6] Jequié Notícias, 2014;
[7] Jornal A Gazeta: Caderno cinema, 2018
[8] Tribuna Online: caderno cidades, 2019

Sociedade NÃO TÃO Secreta das bYXXXas



Ao longo da década de 1980 na cidade de Vitória, grande parte dos grupos de teatro em atividade no período tinha em sua composição ativistas gays e simpatizantes. Em sua maioria conhecidos, de alguma forma, na região e muitos até mesmo no estado. As manifestações artísticas, em especial o teatro, eram amplamente divulgadas nos jornais de grande circulação, principalmente porque ocupantes dos grupos teatrais faziam parte do quadro de jornalistas. Os artistas do período tinham ocupações nos ramos da comunicação, o que facilitava o acesso aos veículos midiáticos. Wilson Nunes, Milson Henriques, Alvarito Mendes Filho, Milton Neves eram todos funcionários das emissoras de rádio e televisão da capital e responsáveis por grupos de teatro e espetáculos em cartaz. No andar de cima da Boate Eros se localizava o ponto de encontro desses e outros grupos de teatro.
Situada em uma das ruas do tão visitado Parque Moscoso, a boate tornou-se local de encontros amorosos e de outras formas de sociabilidade da comunidade homossexual desde a sua fundação no final dos anos 1980 até seu fechamento em meados da primeira metade dos anos 2000. Para entender a importância desse espaço, é necessário compreender que o contexto político brasileiro a partir de meados dos anos 1980 – marcado pelo processo de abertura democrática - é contraditório. Por um lado, há pessoas tentando se livrar de todos os maus agouros da ditadura, denunciando ou sofrendo suas consequências. Por outro lado, há outras pessoas recordando saudosas da disciplina que mantinha a “ordem” e os “bons costumes”, colocando cada tipo de cidadão em seu lugar social e mantendo uma forçada disciplina. Dentro da Boate Eros, porém, os preconceitos eram substituídos por uma maior liberdade. Apesar de toda repressão política e social e da grande incidência de preconceito, apesar das batidas policiais recorrentes na boate, o local ainda acolhia a diversidade artística como em nenhum outro lugar.
O movimento gay da época ainda estava em fase inicial de organização na capital capixaba. Em sua maioria, eram grupos que satirizavam as questões políticas, mas não tinham organização social como base além do grupo de teatro e das performances transformistas individuais. Embora a diversão pessoal fosse um importante motivador para esses grupos de teatro, seus artistas também estavam intuídos do desejo de apresentar para o público uma realidade vivida por muitos deles dentro de suas vidas. Esses grupos aparentemente não tinham como intenção inicial transformar concepções sociais mais amplas sobre gênero e sexualidade, apenas querendo compartilhar que as orientações sexuais diversas estão em qualquer lugar. Apesar dessa possível ausência de intencionalidade, uma transformação política que está “entre” o mundo real e o ficcional ocorre naquele período com o fortalecimento das identidades gay.  
Essa pesquisa trata do tema da formação da identidade gay a partir de um recorte específico, feito na capital do estado do Espírito Santo (ES), entre os frequentadores da Boate Eros, local onde aconteciam, além das noitadas de discoteca, shows de transformistas e apresentação de espetáculos de teatro, em sua essência, dentro da temática gay. Nesse local, o ativismo era forte, frequente e recorrente, o que nos leva a crer que a “performance artística”, que segundo Bonfitto (2013) é uma forma potente de engajamento social e político, tem sua parcela de influência na formação da identidade gay de seus frequentadores. Dessa maneira, sugerimos que a construção de identidades gay e o enfrentamento a discriminação por orientação sexual no âmbito familiar e na comunidade eram em alguma medida embasados nas relações sociais que se fortaleciam a partir da participação desses indivíduos nas atividades da boate, seja como ativistas artistas, seja como ativistas públicos.
Exemplos de performances artísticas fortemente engajadas e relacionadas às identidades gay, podem ser observados em espetáculos teatrais que englobavam tais temas. Seus textos eram fictícios, contados em forma de comédia, usadas para divertir um público que vivia situações aproximadas daquelas contadas no texto. Muitas situações refletiam vontades, mas não necessariamente uma realidade. Dois exemplos distintos foram espetáculos incentivados por Wilson Nunes, artista ativista que tinha muita influência entre jovens iniciantes no teatro. Dentre outros nomes, Wilson Nunes foi um grande propagador das artes performáticas e teatrais dentro da Boate Eros e no mercado artístico da região. Sua personagem Najla Paquetá era a apresentadora dos eventos que aconteciam na boate além de dublar e cantar ao vivo músicas das musas Clara Nunes, Elis Regina e Alcione. Em sua carreira artística participou de inúmeras montagens teatrais, sendo a primeira um espetáculo que ficou conhecido pelo mundo e provavelmente deu-lhe o impulso para a consagração na classe artística teatral. A montagem do espetáculo “Os gatos do beco” de autoria de Alvarito Mendes Filho, não tinha relações com a comunidade gay ou o ambiente da boate além do fato de que os ensaios e encontros artísticos acontecerem na mesma em horários em que não funcionava. Outros textos do autor, no entanto, estavam fortemente relacionados à identidade gay.
Um texto de autoria do próprio Wilson, “Minha Sogra 44”, ilustrava bem os relacionamentos hétero e homossexuais dentro de um mesmo ambiente, que como faziam parte de uma mesma família, se aceitavam de forma natural e normal. Mas ao decorrer da história entra em cena um personagem heteronormativo que não estava “acostumado” com as situações daquela família “diferente” dos padrões da sociedade daquela época.
Outro espetáculo, que fez tanto sucesso a ponto de se manter em cartaz durante muitos anos tendo várias sequências, foi “A Perereca da Marly”, escrita por Milson Henriques, que narra a história da personagem de tirinha de jornal criada pelo próprio Milson, cartunista de jornal de grande circulação no estado. Os personagens principais do espetáculo eram mulheres, mas os atores eram homens, que ficaram consagrados e conhecidos pelas personagens. Marly, representada por José Luiz Gobbi, chegou a ser ala de escola de samba no estado. Em decorrência do espetáculo, Gobbi ficou mais conhecido como Marly do que como qualquer outro personagem que ele tenha feito (se fez, ficou esquecido).
Cabe mencionar ainda, um terceiro exemplo, o espetáculo “Por Favor Matem Minha Empregada” escrito pelo servidor federal Edilson Pedrini, que tinha como estrela o ator Wilson Nunes, que se travestia da personagem Melanie Marques. A personagem era conhecida na Boate Eros como aquela que assumia o controle das apresentações da casa construindo uma performance que durava a noite inteira chamando os shows, apresentando números performáticos (muitas vezes cantado ao vivo) que traziam para a casa um grande número de expectadores que já haviam se tornado seus fãs.
Além dos espetáculos teatrais, a Boate Eros contava, ainda, com espetáculos de transformistas. Os shows de dublagem agitavam o público de várias maneiras. Alguns dos transformistas traziam em seu repertório músicas do pop internacional da moda. Divertiam a elite burguesa com a interpretação das músicas que faziam parte de seu repertório cotidiano. Outros reviviam grandes clássicos da música romântica internacional. Alguns, ainda, levavam para o palco os clássicos da MPB e do samba, músicas que fizeram uma geração protestar, lutar por direitos e criar movimentos que ficaram marcados por essas canções.
Suas performances criticavam ou enalteciam pensamentos sociopolíticos, desejos e anseios daquele e de outros grupos da sociedade brasileira. Um trabalho que ia muito além de uma dublagem musical. Uma performance que sugeria, através de seu comportamento corporal, de seu figurino, de sua maquiagem, dentre outros elementos, um ato de revolta, de insubordinação e de transformação. Alguns performers transformistas da boate foram consagrados tanto na comunidade gay quanto na sociedade em geral, seja nas profissões até então cabíveis apenas para homossexuais – cabeleireiros, maquiadores, atores – seja no empreendedorismo, no ativismo em movimentos sociais ou na política institucional. Nomes como Tarsilla Open, Bianca Castelli, Denner, Lauren Dollar, Mery Ofidê Relpi, Dayse Lilica, Miss Linda, Pâmela Castilho e Chica Chiclete foram marcantes na boate e são personalidades muito conhecidas hoje no cenário capixaba.
Ao subir no palco, essas artistas vestem uma “máscara”[1] que pressupõe estudos e entendimentos daquele personagem que ele está representando. Nos shows da Boate Eros, cada ator ou performer se entrega de maneira única. Os transformistas em suas performances são cada um, a sua maneira, personagens diferentes. As relações entre suas personagens e suas identidades sociais fora do âmbito da Boate Eros eram diversas.
Exemplos são Bianca Castelli, transformista, mulher trans, maquiadora. Suas experiências na sociedade são colocadas no palco a partir de seus talentos e suas performances externas. Tudo influencia na sua composição e na diferenciação de seu personagem aos dos outros. Bianca se apresenta como Bianca e é conhecida na sociedade como Bianca. Diferente, mas não distante, temos as performances de Chica Chiclete. A personagem é vivida pelo transformista conhecido fora do âmbito da boate como Francisco Spalla. O empresário chegou a ocupar cadeira no legislativo. Sua eleição se deu a partir da fama e do sucesso que Chica tinha na comunidade. Mas quem assumiu o cargo foi Francisco. Já Ângela Jackson era atriz muito mais que transformista. Suas performances não eram só os shows de dublagem. Ela cantava, contava com um coro de dançarinos e criava cenas teatrais no meio do show. Ângela é animadora de festas e só nas festas tem esse nome. Em sua vida social, fora do mundo das artes, Rodrigo é homem, gay e trabalha em repartição pública, sem maquiagem, sem saltos, sem peruca.
Analisando esse cenário, essa pesquisa está teoricamente fundamentada em uma revisão da literatura sobre a história do movimento LGBT no Brasil e sobre o conceito de “performance teatral” de Matteo Bonfitto, este último que trata do campo artístico. Do ponto de vista metodológico, essa investigação buscará descrever as performances teatrais em espetáculos teatrais e de transformistas ocorridos nessa boate no período de sua existência (final dos anos 1980 e início dos anos 2000) buscando compreender como essas performances tensionaram identidades de gênero e contribuíram para a formação da identidade gay de seus artistas e frequentadores. Assim, o problema de pesquisa que esse projeto propõe pode ser resumido da seguinte forma: quais são as relações entre as performances teatrais realizadas em espetáculos teatrais e shows de transformistas na Boate Eros e a formação da identidade gay na Grande Vitória entre o final da década de 1980 e o início dos anos 2000?
Essa pesquisa se mostra viável, já que o acesso a entrevistas é fácil devido à proximidade do pesquisador com essas pessoas. Fui frequentador assíduo da boate, principalmente nos anos de 1990. Como possuía um ambiente gay próximo à boate, a frequência era fácil. Participava da sociedade sem lucros de uma sauna que era um ponto de “esquenta” para alguns frequentadores da boate. Fazia parte de um grupo de teatro, mas que não tinha apresentações na boate, porém sempre estava presente enquanto expectador. Possuía uma ligação muito forte com os artistas que faziam parte, tanto do grupo de teatro, como das transformistas que executavam os shows da noite. Durante um tempo participei dos concursos de “Garoto Eros” e auxiliei na produção de alguns dos shows de transformistas.
Ademais, existe um acervo particular audiovisual de muitas noites da Boate Eros que registraram desde a preparação da noite, os shows, alguns espetáculos de teatro até a despedida da noite, com luzes acendendo, sol nascendo e muitos depoimentos de gays e travestis que participaram enquanto público, atores ou transformistas que fizeram os shows da casa. Além do trabalho acadêmico, essa pesquisa tem como objetivo, ainda, fundamentar a construção de um espetáculo teatral que irá ilustrar esse período histórico.


[1] Máscara como conceito que Eugenio Barba descreve como quando o ator define uma estética ou escola teatral a seguir e se utiliza de suas ações cotidianas para preencher lacunas de expressões, sentimentos e sensações dadas ao personagem interpretado (BARBA. 1995).

terça-feira, 26 de maio de 2020

Primeira Aula do curso de Teatro On Line

primeira aula do projeto teatro conectados da vila da Secretaria Municipal de Educação de Vila Velha com Anderson Lima

esse vídeo foi dividido e publicado em quatro aulas no YouTube... então a próxima postagem já vai ser a aula 5

Convite Curso de Teatro On Line

Convite para participar do curso gratuito de Teatro On Line do Programa Conectados da Vila da Secretaria de Cultura de Vila Velha com Anderson Lima (eu)

domingo, 6 de maio de 2018

JOGOS TEATRAIS 2018

JOGO TEATRAL
Por Anderson Lima
aulas da Pof. Dra. Rejane Arruda

PRÓLOGO
Nesta disciplina, alunos/atores irão experimentar jogos e técnicas teatrais para o aprimoramento da expressão pessoal. Todos nos comunicamos com os nossos olhares, com o nosso rosto-máscara e com o nosso corpo, mas nem sempre temos oportunidade de colocar uma lente de aumento e experimentar novos modos de utilizar estes recursos que carregamos conosco todos os dias. A nossa presença corporal pode ser expandida à medida que tomamos consciência de como nos movemos e nos colocamos no espaço, individualmente ou na relação com outras pessoas. A expressividade e a capacidade de observação e escuta serão estudadas e trabalhadas, com ludicidade.
A fala interna, a consciência de regras, a interação consigo e com a turma. Começamos o semestre, eu, diferente do restante da turma, em meus últimos dias como graduando, fomos apresentados a Viola Spolin, organizadora do fichário de jogos teatrais amplamente usado por professores em aulas de teatro e na preparação de elenco de muitos espetáculos. 
  • “Mais que um método para atores e também para o ensino de teatro para crianças, o trabalho de Spolin pode ser considerado altamente social. Nascida em 1906, em Chicago, Viola Spolin foi uma das pioneiras do teatro improvisacional, influenciando até hoje diversas companhias. Seu trabalho foi diretamente influenciado por Neva Boyd, de quem foi aluna em 1924 e depois como supervisora no Recreacional Project, em Chicago. As experiências com Neva foram fundamentais para a concepção do sistema de Jogos Teatrais que criaria futuramente.”

As aulas de “jogos teatrais” me ensinam mais enquanto observador do que enquanto atuante. Essa afirmação parte de uma expectativa de entendimento que pode ficar muito mais distante do que ela realmente é. Não questiono a prática quando digo isso, mas o meu processo. Fiquei intensamente encantado com a predisposição dos alunos do primeiro período em assumirem os papéis propostos. Me super encantei com a habilidade nata de muitos em se adequarem as regras de jogo. Por mais que eu tenha consciência do exercício, acabava me deixando vislumbrar pela participação dos novos alunos atores.

A GÊNESIS (PRIMEIRA E SEGUNDA AULA)
 A aula, que sequencia uma proposição de voz, vem com energia e toda uma mobilidade cênica devido aos aquecimentos já participados da aula anterior. As regras vão ficando claras, pois logo no primeiro momento os próprios alunos as determinam. A ideia do sorteio de regras para cada grupo participante, na hora de entrar no jogo, o torna ainda mais interessante e a interação da turma, que torce para que o jogo funcione, faz com que tanto plateia quanto atuantes sejam um grande espetáculo de se ver.
A primeira aula foi destinada a orientação sobre o funcionamento de um jogo teatral. Exemplos, teorias, técnicas... As atividades pareciam até fáceis, pois muitos artistas tem no jogo uma grande expressão de seus trabalhos. A inovação da arte de divertir dentro do teatro expande a quarta parede e atinge o público que define caminhos para que o espetáculo aconteça. Jogos simples que podem preparar um grande elenco para um grande espetáculo e pode se transformar em uma aula criativa para crianças das séries iniciais.

O ÊXODOS (AS AULAS DE FEVEREIRO E MARÇO)
As aulas de fevereiro e início de março foram bem descontraídas. O reconhecimento da turma entre si, as formações de grupos e os testes e experimentos fizeram parte ativa das aulas. Divididos em pequenos grupos para reconhecerem os “Quem’s?” “Onde’s?” e “O Que’s?”. Participei da preparação vocal que antecedeu a aula de jogo e percebi a grande importância do aquecimento prévio. A energia veio em dobro e os grupos já estavam com sede de jogo. Fiz grupo com Lena e Lucimar e tínhamos como regra o toque para mudarmos a velocidade da fala. O mais interessante foi a forma de termos as regras e a cena. Sorteios aleatórios, o que fez que fôssemos criativos para dar forma. No clique da ação contemplada o dispositivo do jogo liga automaticamente. Temos uma ação física para determinar uma reação. A fala interna é ágil e completa a ação. Nem sempre conseguimos falar o que pensamos. A preocupação com a regra ainda é privativa. Em um determinado momento de jogo, as ações se tornam automáticas e toda ação reflete a regra, que começa a fazer parte do corpo do personagem, de sua história de vida, de suas características.

SALMOS E CÂNTICOS (AULAS DE ABRIL)
O tempo com a repetição e o treino no jogo imprimiu novos rumos aos personagens de cada aluno/ator, que nas aulas da segunda quinzena de março e do mês de abril estavam buscando personagens para construção e produção de um espetáculo performativo. As regras do jogo permanecem, de forma mais fluida. Existe agora um jogo de cumplicidade, de olhares e ações mais espontâneas que completa a cena de acordo com a participação do personagem e na sua interação com o outro.
Minha prática no jogo não foi criar personagem ou cena, apesar de entender que a função que assumi nada mais é do que um de meus múltiplos personagens... Primeiro comecei como voyeur, fazendo o registro em vídeo das entrevistas. Levei um personagem, mas minha gratificação maior foi no vislumbre dos outros alunos/atores.

O NOVO TESTAMENTO (MAIO)
Quando o encontro foi para o Teatro Municipal, dentro de meu reduto, me senti a vontade para auxiliar os meninos e meninas como contrarregra. Acionar a máquina de fumaça, buscar extensões de energia, juntar material espalhado, ligar o som e aumentar e baixar o volumo segundo as regras da direção... Fico realizado em ver o trabalho fluindo, ver a realização e o brilho nos olhos com o prazer dos alunos em montar uma cena, ou criar uma ação. Fiz o registro fotográfico de poucas cenas, auxiliei no trato da luz e na operação de som. O mínimo que poderia ser feito.

Espero que minha contribuição possa abrilhantar muito mais o trabalho realizado.

Por Anderson Lima




JOGO TEATRAL
(2º Bimestre)
Por Anderson Lima

aulas da Prof. Dra. Rejane Arruda
O Evangelho


Ainda em maio, com os ensaios acontecendo no Teatro Municipal de Vila Velha, a proximidade da turma foi aumentando... Acabei começando a me sentir de verdade parte da turma. Apesar de estar me dividindo entre a turma do ultimo período e a do primeiro, estou em nível de aprendizado e conhecimento paralelo aos dois. Estou tendo vivências de um nível de diferença totalmente divergentes.
Foi uma experiência marcante presenciar o nascimento de um espetáculo com jovens atores iniciantes, sendo ouvinte na concepção.
Depois de muitos anos dirigindo e atuando em espetáculos, assumir o papel de assistência é realmente desafiador. Vi durante o processo a construção e desconstrução de várias cenas e de vários episódios. Pensar junto à direção de como seria a luz, pois não tínhamos em mãos equipamentos suficientes para os testes foi um dos momentos mais criativos do meu processo. Anotar entradas e saídas tendo nomes que eu desconhecia como referência.
Sentir a cada momento o crescimento do personagem dentro do ator, ver ele tomando forma a partir dos ecos que consumiam a presença da pessoa, desnudando os sentimentos e formando ações. Vi aparecer sussurros que estavam contidos, gritos antes abafados, desejos e reações explodindo em todo percurso da obra. As idéias vinham como tempestade e a direção tinha que administrá-las apenas com um pequeno guarda-chuvas. Quase quarenta cabeças... Todas na intenção de se salvar, de fazer o "PARAÍSO" seu êxtase.
E como todo Gênesis principia um Apocalipse, estávamos eu, assistindo a tudo, dando meu apoio físico; Rejane, dirigindo, orientando, ensinando e psicanalisando ao final de cada aula/ensaio... E os alunos/atores, aprendendo e construindo ou construindo aprendendo... Construindo seus movimentos corpóreos, divisando entre atividade interior e limites externos ou movimentos externos. Notava-se pontualmente os alunos procurando, mentalmente visualidades para suas personagens, os olhares, as atitudes. Eram perceptíveis as irritações. Como era perceptível a alegria da cena concluída.
Despir-se da indumentária tradicional e experimentar as vestes de outro, aquele que na realidade visual não existe, mas pode ser um desejo oculto. Uma ansiedade de coexistir pode trazer à vida um personagem aparentemente fictício. Pude ver a criação da aparência externa dos papéis a partir do jogo proposto. Ser e estar presente eram regras básicas para o desenvolver de cada cena, de cada ação...

APOCALIPSE (PerformaES)

Só para justificar, não cito apocalipse como fim do mundo, nem como algo ruim, mas sim como o limite findo do processo e a tão esperada entrada no "PARAÍSO". Apenas uma analogia simbólica ao nome. Todo o meu relato foi relacionado a livros bíblicos apenas porque o nome do espetáculo também faz referência ao local bíblico que todos anseiam estar. Entender se este paraíso é ou não é bom para todos seria filosofar no tema da dramaturgia, contudo, meu foco aqui foi apenas desenhar textualmente como vi a construção da obra.
Poderia folclorear muito mais, poderia construir cenas lúdicas cheias de catarse, com efeitos visuais mágicos e simbólicos como reflexão de chamas no bordel, anjos e demônios em guerra constante... Várias imagens e referências que poderiam ilustrar diferentes paraísos. Mas o naturalismo da obra e força da imagem interior criada por cada ator e refletida nos gestos e nas ações físicas tornou o trabalho ímpar... Ímpar e singular! Me senti honrado de participar dessa montagem com um grupo de alunos do primeiro período, ou como eu diria: "do primeiro contato".
Ver o início da vida acadêmica ser agraciada com uma obra polêmica, desafiadora e totalmente despudorada. Não houve medo de mostrar, de agir e de fazer. Uma obra que deve ser patenteada e gerar royalties. Me senti confortável em "PARAÍSO" e, mesmo não sendo nenhum "guru do futuro" ou acreditar em destinos, digo que o "destino" desses novos atores é uma carreira com desafios transpostos e conquistas grandiosas... Muita coisa criativa e instigante aparecerá nas montagens desses desafiadores pós-modernos!

por Anderson Lima
23 de Junho de 2018